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“What Happened, Miss Simone?” e o mal que fazemos uns aos outros

Por Maurício Angelo

Há uma perplexidade onipresente que transpassa todo o documentário “What Happened, Miss Simone?”, que conta a história de uma das artistas mais únicas que o mundo já conheceu. Nina Simone era, sobretudo, um corpo estranho ao meio em que se inseriu. Não era para ela estar ali. A julgar pelo domínio caucasiano do seu nicho – piano clássico – Nina era, entrementes, persona non grata, restando, por questões de sobrevivência mais que de aceitação, os clubes noturnos e a música “pop”.

Daí, talvez, a principal razão para a sua sonoridade tão rica, sua abordagem tão livre, suas interpretações tão diferentes dos standards da época. A mistura de música clássica, jazz, blues, R&B, soul, etc, que trazia para o palco era coisa rara para um meio predominantemente masculino e predominantemente branco. Lembre-se: os primeiros discos de Nina foram lançados ainda no final dos anos 50.

“What Happened…” choca e deprime ao passo que é contraditório e emocional. O crescente processo de burnout de Nina, levada à exaustão no trabalho, numa vida doméstica “conturbada” e sua atuação política cada vez mais intensa, fruto dos movimentos pelos direitos civis nos anos 60 e da relação com líderes negros históricos como Martin Luther King, Malcolm X, Stokely Carmichael e outros.

O paradoxo da ativista tão radical que se tornou em certo período e o fato de continuar por muito tempo casada com o marido, um ex-policial truculento que espancava Nina regularmente. A luta pela liberdade e pela revolução e a aceitação de uma postura de submissão doméstica. Andrew Stroud, marido e empresário de Nina, é figura central do documentário, assim como a relação bélica e conflituosa do casal, seja no âmbito íntimo (e o acordo mútuo de ambos transarem com quem quisessem, em determinado momento) como na gestão da carreira da artista, sempre lutando contra a escassez de recursos quando a postura política de Nina, radicalizada ao extremo, a afastava dos principais palcos e holofotes.

Impressiona o trecho em que, no palco, Simone incita o público a reagir com violência contra os abusos dos brancos, “vocês estão prontos para queimar prédios?”, “vocês estão prontos para dar a vida, se for preciso?”, explicado por sua relação íntima com Malcolm X e sua esposa (eram vizinhos, na realidade) e a fase extrema de X, antes de partir para uma postura mais branda, revisando seus conceitos na “segunda fase” da sua atuação política (recomendo o filme que Spike Lee fez sobre ele, uma das melhores coisas do diretor).

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Os depoimentos de Andrew, que recortam diversos momentos do documentário, mostram a clara diferença de personalidade e mentalidade entre ele e Nina. É visível sua postura de ex-policial-empresário-mercenário-espancador-de-mulheres, colocando-se diversas vezes como “vítima” dos arroubos de Nina. E o vício da cantora em sexo (“eu acho é que devemos fazer sexo o tempo inteiro”, diz a sua voz em off) também traz algumas consequências que o documentário não se furta em mostrar.

Simone, óbvio, não era pessoa “fácil” de conviver. Como a maioria dos gênios não são. Como boa parte dos artistas que enfrentam pressão tão grande e exposição tão massiva. A genialidade é sempre complexa, repleta de camadas nebulosas, passagens mal contadas, omissões e escolhas, do grande drama que a vida, no fim, é. Os demônios de Nina, sua história conflitiva, sua situação social, sua paixão e a relação catastrófica com Andrew, a maneira absolutamente pungente que se colocava no palco em cada apresentação, a maternidade e a dualidade do seu temperamento com as filhas (a filha, Lisa Simone, é outra fonte importante do doc, atuando também como produtora), a pouco comentada imersão nas drogas, o exílio e a felicidade do seu tempo na África, a derrocada na França (tocando em cafés em Paris por 300 dólares a noite), o diagnóstico de problemas psicológicos e a reconstrução da carreira já nos anos 80.

A infância solitária de Nina e seu deslocamento em relação às outras crianças (começou a estudar piano com 4 anos) mostra claras consequências na vida adulta e no ciclo de abusos que ela não só sofreu mas também perpetuou, seja com as filhas, seja com a própria banda e por aí afora.

O guitarrista Al Shackman dá reiterados depoimentos sobre o temperamento explosivo de Nina e, na tela, vemos trechos de shows em que Simone varia entre a hipnose com a audiência, alternando momentos contemplativos de epifania artística e psicológica, com provocações, melancolia e desencontro.

No festival de Montreaux, em 1976, Nina fala para a audiência: “vocês não me entendem, vocês não fazem ideia do que eu quero dizer quando digo que estou cansada…este é o meu último show de jazz, estou me graduando para um plano superior”.

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“What Happenned, Miss Simone?” é, por vezes, brutal e desolador. Coloca o pé na porta não só da história de uma das mais brilhantes e únicas artistas que o mundo já viu, como acaba por revelar o impacto e a magnitude do mal que acabamos fazendo uns aos outros, nas nossas relações familiares, de trabalho, íntimas e de amizade.

A música de Nina é um testamento da sua própria vida, impregnada do espírito do tempo em que viveu e de suas cicatrizes. O título já entrega o tom: “O que aconteceu, Miss Simone?”. Você tinha o mundo aos seus pés, você era a grande artista negra da sua geração, mas o que aconteceu?”.

Uma coisa é certa: não dá para sair ileso depois dessa projeção.

Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "Meu Mundo é Hoje" e "11 Rounds", de contos e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

Published in Cinema Destaques