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O paradoxo Simonal

A geração nascida nos anos 80 dificilmente tomou conhecimento da obra e da importância de . Salvo em hinos impregnados profundamente no cancioneiro popular como “País Tropical”, “Sá Marina”, “Meu Limão, Meu Limoeiro”, “Mamãe Passou Açúcar Em Mim” e “Nem Vem Que Não Tem”. Eu sou um exemplo: criado em casa onde a MPB era dominante, jamais teve a mesma presença que nomes como Chico Buarque, Caetano Veloso, Tim Maia, Martinho da Vila, Roberto Carlos, Milton Nascimento até artistas de menor destaque na MPB.

Se o mundo “cult”, “alternativo” e até o grande público começou a “redescobrir” a música de ícones como Cartola e Zé Keti nos últimos anos, Simonal permaneceu relegado, esquecido, quase que como se não tivesse existido. Um dos maiores ídolos dos anos 60, primeiro negro a comandar um programa de televisão no Brasil, durando mais que outros “concorrentes” da época como a Jovem Guarda, dono de vários hits e figura única, Simona era um ilustre desconhecido para as últimas gerações.

Até 2009. O ano passado marcou o início da “Simonalmania”: o relativo sucesso do documentário “Ninguém Sabe O Duro Que Eu Dei”, o relançamento da caixa “Simonal Na Odeon: 61-71” e finalmente o livro “Nem Vem Que Não Tem: a vida e o veneno de Wilson Simonal”, do jornalista Ricardo Alexandre, tema deste texto.

Burilado durante 10 anos de pesquisa, o livro de Alexandre é a biografia definitiva de Simonal. Está ali tudo de relevante sobre a trajetória do cantor: a infância, o complexo de inferioridade, a questão racial, a pobreza, o exército, o início da carreira artística, os primeiros discos, primeiros sucessos, as parcerias, as amizades ilustres, as ideias, as falhas, os erros, a megalomania, a vida familiar, as mudanças de sonoridade, a relação tumultuada com a mídia, os shows inesquecíveis, os detalhes dos programas de TV e dos diversos espetáculos concebidos no auge, as mulheres, o alcool, o eterno imbróglio com o episódio da tortura de um ex-funcionário que acabou levando a assinatura de um documento onde afirmava ser “informante regular da ditadura”, a fama de dedo-duro, a derrocada da carreira, a perseguição, a mágoa, a decadência, as tentativas frustradas de renascimento, o fim da vida, o legado nos filhos, a redescoberta do público e mídia.

É quase impossível não devorar as quase 400 páginas do livro no maior tempo possível. Alexandre escreve ancorado em pesquisa profunda, em organização precisa e sempre buscando o equilíbrio entre as partes, os “fatos” e depoimentos. “A Vida E O Veneno de Wilson Simonal” é um passeio por tudo de relevante acontecido na música brasileira nas décadas de 60 e 70. Está aqui, direta ou indiretamente, uma análise de movimentos como a bossa nova, a Jovem Guarda, a Tropicália, as várias manifestações do samba, os festivais, a influência política e, claro, a chamada “pilantragem”. Uma aula deliciosa e certeira sobre o período.

Além da análise de como o artista mais popular do Brasil acabou praticamente eliminado da história nas décadas seguintes. Fotos singulares da carreira e uma discografia completíssima são ótimos bônus. Após a leitura, obrigatória, o melhor que você pode fazer é ouvir a música de Simonal, finalmente colocada no patamar que merece.

Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "Meu Mundo é Hoje" e "11 Rounds", de contos e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

Published in Destaques Livros