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O Arcade Fire, afinal, é mesmo tudo isso?

Há alguns caminhos pelos quais uma banda sai do nada para se tornar “a melhor da última década” e queridinha de 11 entre 10 críticos e ouvintes. Raramente isso vem acompanhado de boa música. O Arcade Fire foi exceção. Aliado à embalagem artística diferenciada e o cuidado aos mínimos detalhes – vide a tática de lançamento de “Neon Bible” e as trocentas capas de “The Suburbs” – vinha uma música de força incomum, rica e deliciosamente pop ao mesmo tempo que sombria. Uma banda que sabe exatamente como se comunicar com seu público e com talento suficiente pra conquistar a maioria.

Fui um dos que caíram de amores pelo grupo. Na resenha de “Neon Bible”, que mereceu um 10, em 2007, escrevi: “Ouso dizer que, desde os Smiths, poucas vezes se viu uma banda com tanta sensibilidade pop quanto esta, só que num mosaico ainda mais sombrio, chuvoso e arrebatador. Realmente, não há como não se render. “Neon Bible” merece ser destrinchado e absorvido nos mínimos detalhes. A primeira obra prima do ano.”

3 anos depois, mesmo com o óbvio exagero, o comentário ainda parece válido. O megalomaníaco e pretensioso – não poderia ser diferente pra eles – “The Suburbs” carrega o peso da recepção unânime dos primeiros discos e o fato de sua música já ser território vastamente conhecido. Há problema no “mais do mesmo” ainda quando ele é terrivelmente bom e bem trabalhado? Talvez não. E o disco, no fundo, consegue a façanha de se repetir menos do que o esperado.

“Ready To Start” é o single perfeito. A escolha natural para audiências maiores. Conjunção de fatores que levaram “The Suburbs” a estrear em primeiro lugar nos EUA e Reino Unido. Show produzido por Terry Gilliam transmitido para todo o mundo através do YouTube. É o Arcade Fire metendo o pé no mainstream. Chegaram lá. Com qualidade e consciência.

httpv://www.youtube.com/watch?v=rNn6mimskt0

“Rococo”, de título sintomático, é outra daquelas pérolas que só eles conseguem cometer. “Suburban War”, uma adorável bobagem pop é seguida pela quase punk “Month Of May”, uma das melhores. No máximo que o Arcade Fire consegue ser punk, claro. Já pela metade a impressão é de que, sim, eles fizeram novamente.

“The Suburbs” é muito mais solar que qualquer coisa que eles produziram antes. Sai o apocalipse dramático de “Neon Bible”, entram os primeiros raios de luz. Aquele pop quase veranesco. De um verão bonito e melancólico, repleto de ares gelados. “Wasted Hours”, ‘Half Light I” e “Deep Blue” confirmam a teoria, assim como a maioria das canções. E como resistir a “Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)”, a “Heart Of Glass” do século XXI?

É sério e debochado. Irônico e pseudo-descompromissado. É a banda abraçando mais influências. Mais Neil Young, Flaming Lips, Beach Boys, Springsteen e Talking Heads. Ainda delicioso de se ouvir, com momentos menos aborrecidos. É uma road trip divertida e memorável dentro de um Jaguar E-Type 1968. Clássico e arrojado, sem esquecer da beleza e da performance.

Definitivamente, eles fizeram de novo. Uma dose de cointreau, por favor.

Jornalista investigativo, crítico e escritor. Publico sobre música e cultura desde 2003. Fundei a Movin' Up em 2008. Autor de 3 livros de contos, crônicas e poemas. Vencedor do Prêmio de Excelência Jornalística (2019) da Sociedade Interamericana de Imprensa na categoria “Opinião”. Finalista do V Prêmio Petrobras de Jornalismo (2018).

Published in Destaques Reviews de Cds