Skip to content →

Amarénenhuma: mergulhe

“Eu não vejo a hora de me mergulhar, na maré nenhuma, a maré nenhuma”: é um convite irresistível. Desde o primeiro contato com a música. E irresistível por um motivo simples: a composição em si é uma das melhores – falo de harmonia, de letra, de ritmo, poesia, vocal, instrumental no ponto – do país, fácil, dentro desse “samba torto” que não dá pra enquadrar numa coisa só.

E o Nuda é assim: mesmo com todo o tempo que os conheço, todas as vezes que ouvi, os shows que vi e tudo que escrevi, nunca consegui encontrar uma definição pros caras. E não é porque “eles misturam várias influências pra chegar num resultado único e inovador”. Não. Num mundo em que todo mundo é “original” e  “mistura tudo”, numa tentativa forçada de soar moderno e repleto de boas referências, o Nuda foge desse esquema de maneira natural. Orgânica. Não gratuita. É uma espontaneidade calculada. Uma leveza pesada como a vida.

Você ouve e não entende direito: uma aparente tranquilidade e felicidade, um estado de êxtase, vem acompanhado da tensão, do salgado, da dúvida:  Maré de um / Que um amou demais / Outro amou nenhum / Dor é ser só um / Navegar, mesmo contra a tormenta, sem direção / Que além-mar, escondida, vive uma vida a me apontar seu coração.

httpv://www.youtube.com/watch?v=109nMy7CrDE

Não é melancólico. Não é pretensiosamente decadente, não aspira ser “maldito”.  Não é yuppie, hipster, indie, neo-hippie, fake ou qualquer praga do gênero. É só a pungência do existir com uma poesia tão simples e delicada quanto complexa. É nas entrelinhas, nas sutilezas, na capacidade de costurar arranjos belos, quentes e repletos de uma harmonia excepcional que o Nuda se move. Dá pra ouvir Rapha respirando no início no disco. Proposital, claro. Simbólico. Os backing’s marcam presença pontual, contribuindo bastante para a atmosfera.

“Samba de Paleta” e “Toque Pra Calhetas” é o mergulho propriamente dito. O DNA dos malucos: os fortuitos do ziriguidum. E “Samba” é exemplar também pela letra, que expõe muito da essência da banda e da coisa em si. “Ode aos ratos” é mais que uma versão de uma já excelente e representativa música: é o melhor que Edu Lobo/Chico Buarque não seriam capazes de fazer (por ir além do mundo deles). “Em Nome do Homem” brinca com o tango e é uma das mais pesadas e incisivas do grupo. “A Pedra” e “Pisa”, dois interlúdios, preparam a cama para o esporro.

E se o disco caminha tão coeso e deliciosamente quebradiço até lá, é nas três últimas faixas que o lado mais experimental da banda, que eu tanto aprecio, fala alto. Dossa e Raphiro são arquitetos de timbres nas guitarras, o baixo de Henrique reverbera marcante, forte, completando a cozinha de swing e pegada rara na bateria de Scalia, espécie de guru espiritual da banda, que deixou tudo gravado e cedeu as baquetas para o novo integrante, Antônio Marques. Aqui também a produção de Pablo Lopes e Dossa transpira límpida, sem pecar pelo exagero ou polidez, sem deixar tudo plástico demais, erro tão comum em tempos de “guerra do volume”.

Ao contrário, sua maior qualidade é ser tão oldschool quanto ousada, tão quente quanto equilibrada. Proposta completa pela mixagem de Don Grossinger, que já colocou as mãos em trabalhos de Flaming Lips, Brian Wilson e Pink Floyd. Contribuição apropriada para o clima do disco.

“Acorde Universal” é a maior pepita do citado experimentalismo. Seus mais de 6 minutos em 3 atos trazem algum paralelo com “Fato Mamado Vado”, do primeiro EP. É um ir e vir de constante desafio, um conto de lirismo caprichado, uma tormenta melódica sem igual. “Eu e/ou você, doutor” amansa a fera, bota o samba com cheiro de mar na roda novamente. E “Prece da Ponta de Faca”, título carregado de simbologia, chega num crescendo, vai abocanhando pelas beiradas até te envolver plenamente, deixando uma sensação de arrebatamento no ar.

O álbum é dotado de alma como poucas bandas conseguem. Flui por diferentes camadas sem nunca soar forçado. É uma viagem bruta com notável sofisticação. Dá pra sentir a entrega de cada pessoa que colocou sua dedicação aqui. E dá vontade de ouvir muitas vezes mais. Desnecessário dizer que é um dos melhores discos do ano de uma banda que não encontra paralelo na música brasileira atual. Os caras estão acima de comparações. Pariram uma obra que merece seu lugar na história, na vida de quem ouve. É bonito de se ver e um privilégio acompanhar.

Baixe!

Jornalista investigativo, crítico e escritor. Publico sobre música e cultura desde 2003. Fundei a Movin' Up em 2008. Autor de 3 livros de contos, crônicas e poemas. Vencedor do Prêmio de Excelência Jornalística (2019) da Sociedade Interamericana de Imprensa na categoria “Opinião”. Finalista do V Prêmio Petrobras de Jornalismo (2018).

Published in Destaques Reviews de Cds