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Primavera Sound 2015: mais de 150 shows em um dos melhores festivais da Europa

Por Maurício Angelo

Chegando ao ano 15, o Primavera Sound cravou seu nome como um dos melhores, mais relevantes e organizados festivais do mundo, praticamente abrindo a temporada europeia que, junto com o calor, traz dezenas de festivais para o continente. Os 15 anos do Primavera marcam, não por acaso, o período em que o formato de festival de maior porte explodiu em todo o mundo. Esse “boom” começa até a ser questionado, com o mercado “inflacionado”, sofrendo com o excesso de ofertas do tipo.

Por enquanto, o Primavera administra muito bem essa responsabilidade. O evento não se “limita” ao Pàrc Del Fórum, complexo às margens do Mar Mediterrâneo e de arquitetura belíssima. São 8 palcos (sendo 2 principais em que os headliners se revezam e um auditório enorme), além de outros picos menores, para eventos especiais. Assim sendo, você tem MUITO SHOW acontecendo ao mesmo tempo e é uma tarefa complicada selecionar o que ver, como equacionar o tempo de cada show e, claro, ponderar a energia para andar por todo o Parc Del Fórum diversas vezes. Além do complexo principal, o festival toma completamente a cidade de Barcelona. São vários shows espalhados por várias praças, clubes (Primavera Club), bares, encontros e debates com o mercado fonográfico, jornalistas e gente do meio (Primavera Pro) e por aí afora.

Ambiente 02 Eric Pamies

Além do line-up, ultrapassando 150 shows e com um ótimo balanço entre novos artistas e veteranos, englobando inúmeros estilos musicais (pop, experimental, metal, hip-hop, rock, folk, progressivo, eletrônico, psicodélico, enfim, a lista é longa), o que mais chama atenção é, para nós brasileiros acostumados ao pior cenário possível em grandes festivais, a organização: tudo é pensado para minimizar ao máximo os incômodos de se estar num lugar com 50 mil pessoas, em média, por noite.

Há vários centros de alimentação e lojas menores espalhadas pelo espaço do Parc Del Fórum (indo do tradicional choripan e hamburgueres e batatas à comida local, chinesa, mexicana, indiana, etc), inúmeros bares (vendendo Heineken, cerveja patrocinadora do evento e destilados), ambulantes oficiais no meio do público (tornando realmente fácil comprar cerveja), banheiros suficientes e suporte na saída do festival. Nos dois primeiros dias havia ônibus do próprio Primavera saindo de 5 em 5 minutos durante toda a madrugada para a principal praça de Barcelona e no sábado, último dia, a organização fechou um esquema especial com o metrô para que ele funcionasse de madrugada, tornando tranquilo, dentro do possível, a volta pra casa. Não parece tão difícil assim, certo? E realmente não deveria ser.

Ambiente ATP 02 Dani Canto

É uma diferença brutal para os grandes festivais brasileiros, do Rock In Rio, SWU ao Lollapalooza, passando pelo menor e indie Planeta Terra. Esta diferença de gestão e tratamento passa por inúmeros pontos, da mentalidade à cultura, culminando no próprio público brasileiro, que parece aceitar qualquer coisa para ver seu artista preferido. Boa parte disso é responsabilidade nossa e dá pra mudar.

Aos shows.

29 de maio – Primeiro dia

Cheguei em Barcelona destruído pela viagem, me recuperei o mínimo necessário e parti para o Parc Del Fórum (há uma estação de metrô bem próxima do complexo, tornando fácil para qualquer um chegar). Após os trâmites de imprensa, chego de cara no Palco ATP para o show do Thurston Moore, essa instituição da música alternativa. Com o fim do casamento com a Kim Gordon (e do Sonic Youth), Thurston segue em turnê com Steve Shelley, o baixista Deb Googe do My Bloody Valentine e James Sedwards na segunda guitarra. Sendo um dos melhores e mais influentes guitarristas de todos os tempos, Thurston mesclou material mais recente dos últimos anos com algo do Sonic Youth, numa hora em que o sol começava a se pôr em Barcelona. Como previsto: showzaço.

Antony & the Johnsons_01 Eric Pamies

Desci palco Heineken (um dos principais, ao lado do palco Primavera) para ver a apresentação de Antony & The Johnsons, que retornava ao festival após 10 anos. A persona artística de Antony Hegarty, acompanhado da Orquestra Sinfônica de Barcelona, preparou uma mega estrutura para este retorno, tudo muito bonito e bem cuidado. Uma pena, no entanto, que sua mistura de folk, chamber music e new wave soe tão fraca e tão datada, repetindo clichês à exaustão. Apresentação de impacto restrito para aficionados.

Felizmente tínhamos o Spiritualized começando no palco ATP, fazendo um dos shows do festival. Já se vão quase 20 anos desde “Ladies and Gentleman We Are Floating In Space”. Jason Pierce sempre fez as coisas no seu tempo, do seu modo, sem pressa e desespero. No palco, a formação completa do Spiritualized entrega um banquete de space rock e psicodelia, banhada em influências diversas. Fazendo um bom apanhado dos 7 discos de estúdio da banda, Jason ainda encerrou o show com “Walkin’ With Jesus” do Spacemen 3, seu grupo prévio e que também marcou época. Difícil pensar numa maneira melhor.

Ambiente Pitchfork American Football 01 Dani Canto

No palco Pitchfork (mais afastado, bem na beira do Mediterrâneo, assim como o Adidas Originals), vi um pedaço do que o menino problema do rap mundial, Tyler, The Creator, aprontava. Com público fiel, Tyler conseguiu incendiar a galera apostando numa formação bem enxuta (ele, o DJ e um cantor de apoio), enfileirando suas rimas rápidas e, diga-se, sem muita inspiração com frequencia. Ajudou também o fato do disco “Cherry Bomb” estar fresquinho na praça, lançado ainda em abril.

Chet Faker 01 Xarlene

No Ray-Ban, o badalado Chet Faker lotou o espaço (merecidamente) após “Built On Glass”, seu primeiro disco cheio, lança-lo para o mundo com maior alcance que todos os singles e as tentativas anteriores. Sua mistura de indietronica, downtempo e trip hop funciona perfeitamente bem ao vivo e músicas como “No Diggity”, “I’m Into You”, “1998”, “Gold” e o hit “Talk Is Cheap” empolgam e fazem a plateia dançar por méritos do australiano, que consegue compor texturas e batidas acima da média.

The Replacement 01 Eric Pamies

Nos palcos principais, duas apresentações do dia não poderiam ser mais díspares em história e comprometimento. De um lado o Replacements, que nunca encontrou sucesso algum na década de 80 e inicinho dos 90 com seus sete discos de estúdio lançados. Reformado para uma inesperada volta nos anos 00, encontra vida na figura dos membros fundadores Paul Westerberg e Tommy Stinson. Com o último disco lançado em 1990 – 25 anos atrás – o setlist de 20 músicas teve de tudo, incluindo covers de Jackson 5, Chuck Berry e Joy Division. A energia e vontade dos dois no palco entrega muito mais punch do que pode ser conferido em estúdio, deixando canções como “Favorite Thing”, “I Will Dare”, “Bastards Of Young”, “Alex Chilton” e “Never Mind” mais pesadas e empolgantes que de costume. Um dos grandes shows do evento.

Black Keys 01 Eric Pamies

Por outro lado, o Black Keys, após dois sucessos mundiais com “Brothers” e “El Camino”, chegaram já na decaída com o mediano e sorumbático “Turn Blue”. Conhecidos por serem bons de estúdio e não exatamente iguais ao vivo, Dan Auerbach e Patrick Carney decepcionaram novamente. Tocando com uma preguiça enorme, não conseguem transformar suas melhores músicas em algo digno do palco principal, entregando uma apresentação modorrenta e arrastada, sem empolgar a plateia mesmo nos hits como “Gold On The Ceiling”, “Howlin For You”, “Fever”, “Tighten Up” e “Lonely Boy”.

Fechando o dia, James Blake mostrou porquê recebeu tanto reconhecimento da crítica e do público nos últimos anos. Calcado no dubstep (se pudéssemos escolher apenas uma vertente da música eletrônica para rotulá-lo) fez um show brilhante e preciso, de um artista ainda em início de carreira e capaz de hipnotizar uma multidão cansada, adentrando as primeiras horas da manhã em Barcelona. Bela e memorável maneira de encerrar o primeiro dia de festival.

Shows que perdi por motivos diversos e que me interessavam (conflitos de horário, cansaço, etc): Panda Bear, Sun Kil Moon, Viet Cong, Simian Mobile Disco, Electric Wizard e Sunn O))).

Ambiente Pitchfork DIIV 01 Dani Canto

29 de maio – Segundo dia

O segundo dia de Primavera começou com o atraso no show do Tony Allen no Auditori Rockdelux, então desci para conferir a apresentação de Julian Casablancas com sua banda “experimental”, o The Voidz. Mistura esquisita de hard farofa, um pouquinho de metal e pegada mais “alternativa” que o Strokes. Não é ruim mas também não é bom. Fato é que o tesão com o Strokes nitidamente acabou (como ficaria evidente no dia seguinte) e Julian começa a inventar moda que traga alguma novidade pra ele, o que é normal.

Após esse “esquenta”, tivemos um dos melhores shows do Primavera: pela primeira vez na história Patti Smith iria executar na íntegra o clássico e seminal disco “Horses”, de 1975, baluarte do proto-punk.

Patti Smith 01 Eric Pamies

O que esperar de uma senhora de quase 70 anos que nunca conseguiu alcançar a mesma qualidade do debut, 40 anos atrás? Patti Smith respondeu qualquer desconfiança com um show inflamado, intenso desde o início e repleto de discursos de liberdade típicos dos hippies da sua geração. “Gloria”, “Redondo Beach”, “Free Money”, “Break It Up” e “Land Of A Thousand Dances” foram históricas e inesquecíveis, dignas de quem antecipou o punk rock de forma poética, crua e burilada ao mesmo tempo. No palco, Smith mostra ótima forma, canta com tesão e arranca o máximo que a plateia pode dar. O final ainda veio com a espetacular “Rock N’ Roll Nigger”.

Ambiente Damien Rice 01 Eric Pamies

Diminuindo o ritmo das coisas, Damien Rice fez um show surpreendentemente bom. Talvez por ficar 8 anos sem lançar disco novo, colocando “My Favourite Faded Fantasy” (resenha aqui) no mercado ano passado, o irlandês retomou o gosto pelo show ao vivo. E se o formato de ser apenas ele, seu violão/guitarra e alguns truques parecia insuficiente para um festival do tamanho do Primavera, a coisa funcionou muitíssimo bem.

“Delicate”, “I Don’t Want To Change You”, o mega hit “The Blowers Daughter”, a ótima “The Greatest Bastard” e o trio final, culminando nos 10 minutos de “It Takes a Lot To Know a Man” e seu final cheio de intervenções próprias deixaram ótima impressão e conquistaram a plateia. Belo show para o entardecer em Barcelona.

Sleatter Kinney 01 Eric Pamies

No dia com melhor escalação dos palcos principais, dois retornos foram responsáveis por também elevar o nível do festival: primeiro as meninas do Sleater-Kinney, que botaram na praça o ótimo “No Cities To Love”, dos melhores discos do ano, tranquilamente. Referência do rock alternativo e há algum tempo inativo, o Sleater mostrou porquê tem o lastro que tem e celebraram 20 anos de carreira e quase 10 de hiato até o retorno com uma pegada que dava gosto de ver.

Ride 02 Eric Pamies

Depois foi a vez dos ingleses do Ride, coroando um momento de estranha e inesperada volta do shoegaze ao centro das atenções. Estilo que nunca sequer arranhou o mainstream, vive uma verdadeira série de retornos nas figuras do My Bloody Valentine, Slowdive e Swervedriver. Sem planos (por enquanto) de gravar material inédito, Andy Bell e Mark Gardener fizeram uma boa escolha de repertório com os 4 discos que tem em mãos, lançados entre 90 e 96. A plateia parece responder de acordo, turbinando as paisagens plácidas típicas das canções da banda, engatilhando timbres e distorções que ganham mais vida ao vivo.

Após esses momentos de nostalgia era hora de subir pro palco ATP, abarrotado pela presença do Run The Jewels, queridinhos do hip-hop atual e hypados por verem os dois discos lançados em praticamente todas as listas de melhores do ano. Killer Mike e El-P, no entanto, não chegaram até aqui por acaso. Ambos tinham carreira consolidada antes do RTJ e fizeram o que deles se esperava: rimas rápidas e poderosas, beats melhores que o normal e público em transe. Boa oportunidade de ver uma dupla de artistas no auge e claramente contentes de estarem ali.

Run The Jewels 01 Dani Canto

O dia ainda teria mais uma volta: a do Death From Above 1979, duo canadense de “dance punk” (o termo é péssimo, mas talvez descreva bem) que teve alguma rotação na cena alternativa no início dos anos 00 com o disco “You’re a Woman, I’m a Machine”. Além da faixa título, “Romantic Rights” e “Blood On Our Hands” são faixas que valeram ver ao vivo, juntando-se ao material novo.

Por fim, os veteranos do Earth, capitaneado por Dylan Carlson, destilava peso e atmosferas bem trabalhadas com seus drones arrastados no palco Adidas. Troço bonito de se ver para quem é fã do estilo, como eu.

30 de maio – fim

O último dia, com a estafa batendo (8/9 horas de festival todos os dias, andando pra cima e pra baixo no Parc Del Forum não é pra qualquer um) e, proporcionalmente, a escalação menos interessante, serviu para que eu visse menos shows mas, ao mesmo tempo, pudesse prestar mais atenção a cada um deles, conferindo muitas vezes apresentações completas, ao contrário das diversas escolhas que tive que fazer nos dias anteriores.

Swans 04 Dani Canto

E começamos da melhor maneira possível com o Swans no Auditori Rockdelux (disparado o lugar mais adequado para um show deles). Ícone da música experimental, o Swans, liderado pela figura de Michael Gira, tem mais de 30 anos de carreira, 13 discos no currículo e tem vivido uma verdadeira “segunda vinda” desde que foi ressuscitado em 2010, com Gira fazendo alguns dos melhores discos que produziu. Massacre do início ao fim e público em transe num show de quase duas horas e uma verdadeira aula magna de experimentalismo.

Depois de uma porrada dessas foi até covardia conferir um pedaço do Foxygen no palco principal. “Pop psicodélico” afetadíssimo e emulador descarado de um sem número de nomes que fizeram antes, melhor e com mais talento.

Einstürzende Neubaten 01 Dani Canto

Voltando ao talento e experimentalismo, uma outra aula foi a dos alemães do Einsturzende Neubauten no ATP. Seu avant-garde/industrial com três membros originais, o vocalista Blixa Bargeld, o faz tudo N.U. Unruh e o baixista Alexander Hacke serviu para mostrar do que verdadeiros gênios são feitos. Influência de tanta gente boa surgida depois, o Neubaten é daqueles atos pra assistir reverenciando do início ao fim, já que encontra pouquíssimos pares no mundo. Um deleite para conhecedores e apreciadores.

Ambiente 01 Eric Pamies

No palco Primavera, o Strokes tocaria na Europa pela primeira vez desde 2011. O que explica terem feito o show mais lotado de todo o festival, disparado, apesar dos discos ruins nos últimos anos. Fato é que desde que estouraram no mainstream com “Is This It?” em 2001, a trupe de Julian Casablancas foi tendo algum momento aqui e ali mas nunca se firmaram exatamente pela qualidade dos seus discos e apresentações mas pelo hype e carência de um nome capaz de ancorar aquela história forçada de “novo rock” que tentaram cunhar no início dos anos 00.

Tocando com o tesão de quem tá indo ao dentista, chega a ser desconfortável ver o desperdício que a banda é ao vivo, com o público nas mãos mas sem vontade alguma de fazer algo que preste com isso. Um punhado de boas músicas, sim, mas que no palco vira uma maçaroca desinteressante, executada de modo protocolar e que não empolga ninguém, mesmo nos maiores hits. Lástima.

Para fechar uma grande edição do Primavera Sound, no entanto, a noite era de dois atos eletrônicos bem diferentes entre si mas, felizmente, com o nível lá em cima.

Os britânicos do Underworld, um dos nomes chave da música eletrônica na década de 90, responsáveis por algumas das transformações na cena e de impacto tremendo, apresentariam pela primeira vez o clássico disco “dubnobasswithmyheadman” na íntegra, lançado em 94. “Dark & Long”, “Mmmm…Skyscraper, I Love You”, “Spoonman”, “Dirty Epic”, “Cowgirl” e “River Of Bass”, quase o álbum inteiro de composições que definiram uma geração. E ainda tínhamos “Born Slippy.NUXX”, imortalizada pela trilha de “Trainspotting”.

Herdando todo o público do palco principal, com o fim do show do Underworld, Dan Snaith, na figura de Caribou, encerrou o Primavera Sound 2015 deixando o Ray-Ban stage abarrotado. Mudando de patamar desde o lançamento de “Swin”, em 2010 e principalmente com “Our Love”, um dos melhores discos do ano passado, Dan conseguiu deixar ótima impressão para todos ali, mais dançante e menos “quebrado” que seus primeiros álbuns ainda como Manitoba. “Can’t Do Withou You” e “Sun” finalizaram uma apresentação memorável de um festival que merece a fama que conquistou.

O Primavera Sound 2016 já está marcado para os dias 02, 03 e 04 de junho e ingressos a preços promocionais já podem ser comprados no site.

Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "Meu Mundo é Hoje" e "11 Rounds", de contos e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

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