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Aprendendo a modular a mensagem, Bolsonaro escancara que a sua política cultural é nazista

A sabedoria popular diz que se você jogar um sapo em água fervente ele pulará rapidamente para fora da panela. Mas, se o mesmo sapo for cozido devagar, ele morrerá gradativamente pelo cansaço até perceber que é tarde demais. Essa anedota do senso comum ilustra bem o caso da demissão de Roberto Alvim do cargo de secretário de Cultura do Brasil.

Quem julga que Alvim é só mais um lunático bolsonarista que caiu de paraquedas em Brasília se engana. Quem acha que o vídeo em que imita Goebbels foi um “acidente” ou que teria sido “manipulado por assessores” está comprando uma narrativa frágil criada pelos lacaios digitais do bolsonarismo.

Roberto Alvim sabia perfeitamente o que estava fazendo. Tudo, absolutamente tudo no vídeo, do discurso, frase a frase, da música de Wagner, o tom de voz, o cabelo emplastrado, o cenário, a feição e a interpretação, foram pensados exatamente para ter o efeito que tiveram. Tudo visto, revisto e aprovado pelo governo federal.

Roberto Alvim é um diretor de teatro e não qualquer um. Alvim é fundador de uma companhia de teatro e diretor perfeccionista que montou e dirigiu peças de Samuel Beckett, Harold Pinter, Strindberg, Godard, Baudrillard, Franz Kafka e outros. Nada exatamente que se assemelhe à estética tosca, estúpida e propositadamente descuidada do bolsonarismo.

Este longo perfil publicado na Piauí em 2014 por Michel Laub é absolutamente necessário ao traçar um panorama complexo da personalidade e da obra de Alvim. As peças do diretor, informa Laub, foram encenadas em países como França, Alemanha, Espanha e México. Alvim é um dos poucos brasileiros publicados na Les Solitaires Intempestifs, uma cultuada coleção francesa de dramaturgia contemporânea.

O seu Club Noir, misto de teatro e escola, formou centenas de alunos com metodologia própria e suas aulas foram ministradas em Bruxelas, Montevidéu, Guadalajara e Frankfurt. O hermetismo de Alvim é destacado, assim como as suas obsessões, remorsos, invejas e brigas entre os seus pares.

Escreve Laub:

“O conjunto de ideias surgido dos trabalhos do Noir recebeu um nome, “Dramáticas do Transumano”, exposto num livro homônimo e difícil, se não impenetrável para não iniciados. Alvim emprega expressões como “morfogênese linguística de multiespécies” e cita dezenas de referências, de Wittgenstein, Deleuze, Heidegger e Lacan, aos “teoremas da incompletude de Gödel” e o “buraco negro toroidal de Kerr”. O que move o autor é a ideia da singularidade, de promover uma espécie de revolução permanente na concepção, na técnica, na arquitetura cênica e no sentido, rejeitando os “sistemas formais hegemônicos” naturalizados na forma como se vê teatro hoje. Usando o vocabulário do texto, é preciso “problematizar” as noções que temos, por exemplo, de sujeito, linguagem, tempo e espaço real e cênico”.

Deve ter sido no mínimo interessante as reuniões de Alvim com Bolsonaro e o alto escalão do governo, não? O que alguém com o histórico de Roberto Alvim tem a ver com o personagem “cristão, família e Deus Vult” que ele criou para ingressar no governo? O ressentimento, certamente. A mágoa de “não ser reconhecido” como gostaria, de ser “perseguido” por não ser tão “abertamente de esquerda” em um meio tão esquerdista quanto o teatro. Teria Alvim embarcado na nau miliciana para se vingar dos seus pares e praticar, de dentro, uma “experiência” a partir de um personagem? Não seria o próprio vídeo um esgarçamento dessa tese, uma provocação última para ver até onde seria permitido ele ir?

Desconfio que sim. Mais importante do que isso, no entanto, a breve experiência de Alvim no covil dos mentecaptos ressentidos prova que a política cultural de Bolsonaro é, do início ao fim, nazista.

Com a aprovação da azêmola presidencial, Alvim emulou Goebbels, pinçou palavra a palavra e jogou sua tese no ar. “Refundar a cultura nacional” com ganas de patriotismo acéfalo e ultimatos ao gosto de Hitler e um edital de R$ 20 milhões, uma retunda estupidez de alguém que conhece bem os custos da área. Os R$ 20 milhões, por exemplo, não correspondem sequer a metade do orçamento de um único musical encenado em São Paulo, algo que Alvim sabe de trás pra frente.

Roberto Alvim não caiu pelo conteúdo nazista do seu vídeo. Não caiu por repassar as ideias do “guru” Olavo de Carvalho, não importa o quanto esse sujeito asqueroso tente se desvencilhar disso (e eles sempre tentam quando a resposta é ruim).

Caiu porque deixou explícito demais as intenções do governo. Caiu porque incomodou a comunidade judaica e poderia abalar as relações Brasil-Israel, tão caras a Bolsonaro desde o início do mandato. Não por acaso, após a repercussão negativa e a pressão pela demissão, Bolsonaro disse repudiar as “ideologias totalitárias e genocidas” e “qualquer tipo de ilação às mesmas”. Além disso, manifestou “total e irrestrito apoio à comunidade judaica”.

Negócios, tolinho. Tudo com a cartilha de Steve Bannon, a extrema-direita americana e o seu plano de dominação teleguiado.

A política cultural de Bolsonaro é nazista, burra, estúpida, fede ao “patriotismo” mais rasteiro, a uma ideia absolutamente vulgar e reducionista do que é cultura, que tenta domar um país absurdamente plural, popular, forte, africano, nortista, politeísta, sensual, desafiador… exatamente tudo aquilo que o nazismo detesta.

A política cultural de Bolsonaro é uma contradição em si, uma infecção generalizada contra a história de um país machucado por uma elite abjeta e cretina e o seu projeto de poder fascista.

Regina Duarte, a atriz global ruralista e latifundiária que odeia e persegue indígenas no Mato Grosso do Sul, é apenas a nova emissária escolhida para levar adiante a mensagem. Mais “suavizada”, mais “sutil”, mais “doce”, porém igualmente nazista e perniciosa.

Os comentaristas se apressaram em saudar a “moderação” de Duarte. Paulo Roberto Pires resume bem esse horror:

Na semana passada, jornalistas profissionais, que recebem salário para desempenhar suas funções, comentavam o convite de Regina para a secretaria como se acompanhassem uma novela. Em considerações feitas ao vivo, torciam constrangedoramente pela “grande atriz”, “politizada”, aquela que “não é radical” e irá pacificar a vida cultural do Brasil “polarizado” (risos).

A tese de que Regina representa um ganho é, portanto, um abraço de afogado no senso comum e só se sustenta na base da má fé, do fanatismo ou de ambos.

Tanto o nazista de anedota quanto a noivinha do Brasil fascista são nefastos. Ao som de Wagner ou de Fagner, ambos defendem a mesma política de Estado para a cultura, baseada em ideologização tosca e, é claro, em expurgos numa guerra cultural imaginária. Mudam os atores, o cenário e o figurino, mas o roteiro é o mesmo. 

Como chegamos até aqui?

Como deixamos de ter no cargo máximo da cultura no Brasil alguém como Gilberto Gil, a antítese e o oposto do que Bolsonaro, Alvim e Duarte representam, para o NAZISMO em poucos anos? Como migramos de um dos melhores e mais significativos artistas – na teoria, na prática, nos palcos e fora deles – do Brasil e do mundo para um discurso tosco que arrancaria palmas de Hitler?

Nada disso acontece por acaso.

A fascistizada sociedade brasileira apertou 57,8 milhões de vezes o 17 na urna eletrônica para entregar o país aos que restou dos porões da ditadura, os grupos de extermínio, os torturadores de pijama, os ruralistas genocidas, a plutocracia sádica, os jornalistas de encomenda, a toda a escória sanguinária que ascendeu ao poder junto com os parasitas milicianos.

Jair Bolsonaro entrega, portanto, exatamente o que se esperava dele. Não podemos acusá-lo de estelionato eleitoral. Pelo contrário: tem feito exatamente o que prometeu fazer e foi eleito para tal. Na cultura e fora dela.

Mas Gilberto Gil, nessa entrevista, deixa claro o que ele pensa sobre. Como o Brasil inevitavelmente resiste a essa ignorância perigosa. A fala de Gil é bem próxima da de Mateus Aleluia, outro gigante, de que a cultura é muito mais perene, profunda e complexa do que querem meia dúzia de fascistas que em breve desaparecerão. É preciso ter noção histórica para enfrentar a negação da identidade brasileira.

Diz Gil:

As interrelações que propiciam essa inter-institucionalidade diplomática é um desejo, um modo de ser da sociedade atual que os protofascismos, os neofascismos, o conservadorismo embrutecedor não conseguem dar conta.

Penso eu que não darão conta. Essa coisa de plantar uma bandeira de um princípio único, uma monocultura da política, da religião, do entretenimento, da informação, tudo isso é…a mim me parece que não cabe mais. É preciso que tenhamos governos com essa noção. Que venham a ter de novo essa noção. Que não é o caso desse governo pelo menos no plano central não é o caso hoje em dia no Brasil.

O Brasil é maior que a mesquinharia nazista da turba bolsonarista.

Com escoriações graves, certamente, mas eles passarão.

Gilberto Gil – e tudo que ele representa – é o remédio.

Jornalista investigativo, crítico e escritor. Publico sobre música e cultura desde 2003. Fundei a Movin' Up em 2008. Autor de 3 livros de contos, crônicas e poemas. Vencedor do Prêmio de Excelência Jornalística (2019) da Sociedade Interamericana de Imprensa na categoria “Opinião”. Finalista do V Prêmio Petrobras de Jornalismo (2018).

Published in Especiais