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Feira Música Brasil: farofa mineira

Difícil falar de um evento em que, por trabalho e motivos pessoais, pude ver muito pouco do que queria. Perdi Uakti e Gilberto Gil na abertura da Feira Música Brasil, além de Otto, Lucas Santtana, Tulipa Ruiz, Renegado, 3NaMassa, Toninho Horta e vários outros artistas. Também não participei dos debates, mas soube que a grande quantidade de produtores, jornalistas, músicos e toda uma cadeia reunida já gerou novas ideias e oportunidades. No fundo, é o objetivo central desse tipo de evento. Sem falar em aproximar um público maior de diversos artistas que normalmente ficam restritos a nichos específicos.

httpv://www.youtube.com/watch?v=M8OwyiVmGJQ

Até que ponto esse gueto natural é quebrado, difícil mensurar. Mas certamente colabora para que algumas barreiras sejam quebradas. Já tinha visto o show do Babilak Bah, que ilustra este post, na Feira MDA em Brasília, este ano. Sua “orquestra de enxadas” é sempre um espetáculo. Incluindo programações eletrônicos e as dezenas de instrumentos de percussão tradicionais ou inusitados, instrumentos de sopro e sua presença, marcante, na vibração genuína de uma música que transpira criatividade.

O mesmo pode ser dito, ainda que de maneira diversa, sobre o projeto Mestres da Guitarra, que reúne Mestre Vieira, o criador do estilo e Pio Lobato, a “nova” geração. Já comentados aqui quando se apresentaram em Brasília. A se lamentar somente o tempo reduzido dos shows na Feira BR, com apenas 30 minutos para a maioria das apresentações – levando Mestre Vieira a ser praticamente expulso do palco, com o som cortado, absurda falta de respeito e bom senso.

Na quinta pude conferir um dos que mais queria ver: Banda de Pífanos de Caruaru. História pura, com integrantes acima até dos 90 anos. Fizeram uma autêntica celebração da música nordestina e brasileira, passando pelo baião, forró, MPB – tocaram “Pipoca Moderna”, composição conjunta com Caetano, um clássico – homenagearam Sivuca e criaram uma imensa ciranda de roda entre o público. Momento bonito, de celebração. Um privilégio poder vê-los no palco. Dá uma olhada (a qualidade é ruim, mas o áudio e o espírito estão lá):

httpv://www.youtube.com/watch?v=D55ajOYl-LY

Depois, Andreas Kisser reuniu uma cambada de artistas mineiros para um show esquisito, fora de compasso e que pecou pelo excesso de “diversidade”. Membros do Skank, Tianastácia (a banda é coisa séria por aqui), Scarcéus (lamentável), Overdose (do início do metal mineiro) e Lenine se revezaram entre covers do Beatles cantados por Kisser, músicas próprias dos nomes citados e covers de Pantera, Kiss e Sepultura (Refuse/Resist e Kiowas) na participação de Bozó do Overdose.

httpv://www.youtube.com/watch?v=hA8VY1ACovo&feature=related

No sábado, Ná Ozzetti mostrou que ainda tem lá sua relevância num show redondo e sem surpresas, divulgando seu último disco, “Balangandãs”, de 2009. Apesar de estar meio fora do circuito e da mídia, Ná tem seu valor. Os eventos da Feira foram espalhados por vários lugares da capital mineira: a Funarte, o Nelson Bordello, A Obra, NaSala, Palácio das Artes, Lapa Multishow, Viaduto Santa Tereza e Mercado Novo. Gerando enorme movimentação e apresentações para literalmente todo tipo de público. Concentrando os nomes mais “tradicionais” na Funarte, os independentes no Lapa, Bordello e etc. Ainda consegui ver o Transmissor embaixo do viaduto. Apesar de tocarem sempre em BH, foi a primeira vez que consegui conferir a banda. Que me pareceu um pouco perdida no seu rock/pop alternativo sem muita personalidade, além de morno. Mas vale a pena dar outras chances.

Na Praça da Estação Milton Nascimento reuniu uma turma que contou com Elza Soares, Arnaldo Antunes, Lenine, Margareth Menezes, Elba Ramalho, Lô Borges, Luiz Melodia e outros. Cada um se apresentou com 3 ou 4 músicas e Milton apareceu no fim, cantando sozinho e acompanhado de Lenine (“Paciência”), Lô Borges e uma jam final inevitável com todo o time. Totalmente abarrotada, a Praça da Estação viu um ícone que não perde a forma jamais e tem, de fato, uma das mais belas e inimitáveis vozes da música mundial. Milton é figura única em muitos sentidos. Sempre um prazer.

Mesmo com alguns problemas de organização (simplesmente cortar o áudio de Elza Soares em participação no show do Otto por ordem da prefeitura pelo horário ligeiramente avançado parece o pior deles), não há dúvidas que a Feira Música Brasil atingiu seu objetivo com méritos, sendo um evento importante para a cena mineira. Que façam próximas edições ainda melhores.

httpv://www.youtube.com/watch?v=vn0PVeNhC28&feature=related

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Jornalista investigativo, crítico e escritor. Publico sobre música e cultura desde 2003. Fundei a Movin' Up em 2008. Autor de 3 livros de contos, crônicas e poemas. Vencedor do Prêmio de Excelência Jornalística (2019) da Sociedade Interamericana de Imprensa na categoria “Opinião”. Finalista do V Prêmio Petrobras de Jornalismo (2018).

Published in Destaques Reviews de Shows