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Rubem Braga: o morro não é dos malandros

Topei com essa crônica na recente caixa lançada pela editora Autêntica com crônicas parcialmente inéditas e outras fruto de um trabalho de garimpo histórico incrível baseado nos arquivos de Rubem Braga. Escrita em 1936, quando Rubem tinha apenas 23 anos (!!!), está presente em “Os Moços Cantam & outras crônicas sobre música”, com organização de Carlos Didier, parte dos três livros que completam a caixa, que inclui também crônicas sobre política e arte.

É de uma beleza e de um brilhantismo absoluto e, como lembra Paulo Eduardo Neves neste post, “muito antes de Cartola gravar seu primeiro disco, antes mesmo da célebre gravação de Leopold Stokowski com músicos brasileiros em 1940 e quando Noel Rosa ainda estava vivo!”. É uma crônica obscura, divulgada anteriormente somente em revistas especiais da prefeitura do Rio de Janeiro e, neste caso, em um fórum na internet. A versão, com diferenças sutis, foi transcrita diretamente do livro. Para ler de joelhos e adequada para o momento. Aproveite.

“O morro não é dos malandros” (Rubem Braga, 26 de novembro de 1936)

Em qualquer morro do Rio já se ouve, hoje, um ronco, um barulho de tambor surdo, uma voz cantando uma coisa esquisita. Há qualquer coisa lá por cima e não é sem tempo. Eles estão se preparando, estão começando a se preparar. Os exércitos do samba fazem os primeiros exercícios antes de marchar sobre a cidade. Lá vem samba.

É preciso gostar do samba e para gostar do samba é preciso conhecer o samba. Porque a verdade é que muita gente gosta sem conhecer. E o pior é que muita gente não gosta nas mesmas condições. Está visto que há samba e há samba. Do partido-alto e do partido-baixo. E de muitas variedades. É provar. Não é decente falar em samba sem falar em Noel Rosa. Ele faz sambinhas repenicados, desses que se podem cantar com o auxílio de uma caixa de fósforos. Faz também o outro samba, o samba alto, o samba para a multidão mestiça chorar, o grande samba.

Para gostar desse grande samba não é preciso achar que ópera é música para boi dormir, como definiu um meu amigo. Um sujeito que gosta de ópera e não gosta de um samba de Cartola, da Estação Primeira do Morro de Mangueira, é um sujeito que não gosta propriamente de ópera, gosta apenas do Teatro Municipal. Não convém esperar que um samba de Cartola chegue a ser conhecido por uma cantora qualquer que o vá ganir pelo microfone de qualquer PR. O melhor é tomar um ônibus Méier, descer ali na rua São Francisco Xavier, atravessar o viaduto e subir o morro. Aí, sim. Um samba é um samba, é qualquer coisa de muito.

Não é só na Mangueira. Em qualquer morro e mesmo em qualquer canto pobre da cidade. Houve um tempo em que só se falava em Favela. Hoje o samba se espalhou. Há um, por exemplo, que canta as glórias do morro de São Carlos:

“No morro de São Carlos / Tive um trono / As negras me velavam o sono / Numa corte imperial.”

E o cantor compara a mulata que fugiu a Maria Antonieta, “fazendo muita falseta,” e ele mesmo a um rei Capeto abandonado que acaba infeliz, guilhotinado pela saudade da referida senhora.

Mas se eu citei Cartola é porque nele se encontra um sentimento tão profundo e primitivo que a letra de repente nem quer dizer nada e acaba dizendo coisa como diabo. Ele é talvez melhor que o famoso Paulo da Portela e o samba parece mais puro. Reparem só nessa letra:

“Semente de amor eu sei que sou / Desde a nascença / Mas sem ter vida e fulgor / É minha sentença.”

Isso na voz de negro, entre o coro das mulatas, é qualquer coisa de fundo, de triste, de uma desgraça preta mesma, preta como o soluço de uma cuíca.

Mas parece que é estragado o samba transcrevendo assim um pedacinho sem música, sem a voz, sem os surdos, as cuícas, os tamborins, as mulatas, o morro…

Só indo lá mesmo. E é preciso acabar de uma vez essa história de que morro é terra de malandro. Eu, que já fui várias vezes a vários morros e já morei vários meses em Copacabana, sou capaz de jurar que nos apartamentos da areia há mais malandros que nas casinhas de lata velha lá de cima. A grande maioria da população do morro é de trabalhadores, sujeitos que pegam no duro todo dia, que vivem suando. A malandragem existe mais no samba que na realidade.

O batente é o mais comum. Malandros não teriam, por exemplo, capacidade para organizar uma escola de samba. Para isso é preciso ter o espírito, a disciplina, a força de vontade de um trabalhador. E os morros estão cheios de escolas onde pode haver cachaça, mas há muita alegria, bastante respeito e, às vezes, uma disciplina quase militar. Já esse nome de escola implica uma idéia de hierarquia, de cooperação, de ordem, de método de que um verdadeiro malandro não é absolutamente capaz.

Quando falo que nas escolas de samba há muita alegria, não quero que se confunda alegria com bagunça. Ali não há cerimônia, mas também não há gandaia solta. E de resto ninguém pode esquecer a função quase religiosa que o samba tem no morro. Uma religião sem Deus, mas com sacerdotes, noviças, rito, tristeza, esperança… Mesmo porque não é preciso ser campeão de folclore para sentir como o samba recebeu e ajeitou a influência de certas orações de macumba.

O cavalheiro que se dispõe a ir a um morro, mesmo com a sua senhora, irmã, noiva, namorada, tia ou bisavó, não necessita levar uma boa metralhadora nem mesmo uma pistola de gás lacrimogêneo. A sua bolsa e a sua mulher não correm tanto perigo. A sua mulher, pelo menos, na sua descida do morro lhe dirá que foi tratada infinitamente com mais respeito do que quando passava pela Avenida, sábado de tarde…

Um amigo meu foi há tempos a um morro. Havia bebido demais e no fim da festa estava naquele estado em que tudo gira e se confunde em torno de nós, e, mais ainda, dentro de nós. Em pleno caos alcoólico, meu amigo deixou de saber o que estava fazendo. Acordou no dia seguinte numa cama ao lado de um mulato e de uma mulata que o haviam rebocado até ali por caridade e ainda lhe deram café e dinheiro para o ônibus que o conduziria aos seu luxuoso apartamento de Ipanema….

Vamos, portanto, para o morro ouvir as primeiras cuícas do carnaval do ano que vem. Não precisamos levar armas. Levemos ouvidos e coração para ouvir e para sentir. Não aprenderemos música. Mas sentiremos coisas que são tristes e belas e que é bom sentir. Aprenderemos sentimento…

Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "Meu Mundo é Hoje" e "11 Rounds", de contos e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

Published in Especiais