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2017: um ano marco para o rap nacional

Existem anos que funcionam como uma confluência de objetivos, significados, tendências. Anos em que artistas de um mesmo estilo encontram a linha certa entra a estreia e a maturidade, em que colocam as cartas na mesa com a certeza de que não sairão da rodada derrotados. Esse foi o caso de 2017 e o rap nacional. Se o hip hop é o estilo mais relevante no mundo há algum tempo – em termos de influência cultural, alcance comercial, como voz de uma época – no Brasil isso poucas vezes ficou tão claro como agora.

O século XXI tratou de colocar novos atores nesse cenário – da trupe de Emicida e cia – e em 2017 outros nomes (sobretudo) fora do eixo Rio-SP  tomaram os holofotes de assalto. Nenhum outro estilo é capaz de colocar as tensões e os desejos de um tempo de maneira tão eficaz e potente quanto o rap. Nenhum outro estilo ecoa tão pesado, e com méritos.

É o caso do mineiro Djonga, que saiu dos duelos de MC’s de Belo Horizonte para o primeiro disco cheio, o ótimo “Heresia”, que já na capa provoca e reverencia o passado com a reinterpretação da capa do Clube da Esquina de Milton Nascimento e cia. Pesado, direto, nervoso e nevrálgico, ele manda em “Esquimó”:

Quem tá com a moral em cheque, precisa ser perdoado
Aquele jab precisa ser desviado
O policial precisa ser confrontado
Sujeito homem fala, não manda recado
Lei do cuidado, onde conversa fiado
Onde tem quem acha graça zoar viado
Eu acho engraçado um racista baleado
Eu sou macumba, o rival amaldiçoado
Largando linhas, pra nem morto ser calado

Mamãe disse pra te nocautear, né? Djonga faz isso muitíssimo bem. No flow, nas letras, nos beats, o disco inteiro funciona como música, funciona na mensagem e tem alto fator replay.

Outro que chegou quebrando a banca foi o baiano Baco Exu do Blues. Sincretista virulento, lascividade no talo e malemolência certeira, emplacou “Te Amo Desgraça” como uma das músicas do ano, adotada imediatamente pelo público. Difícil resistir a essa mistura de “desconstrução do senso comum lírico, onde retrata desilusões e inferiorização da mulher, igualdade nos relacionamentos”, segundo o próprio Baco. Que chama a sua “facção carinhosa”:

Bebendo vinho
Quebrando as taça
Fudendo por toda casa
Se eu divido o maço, eu te amo, disgraça
Te amo
Nosso ódio pelo mundo é parecido
Você nua pela casa é tão lindo
Bastou a gente fuder, eu vi, tava fudido

Outro discaço é o do cearense Don L que em “Roteiro para Aïnouz, Vol. 3” brinca com um certo status quo musical brasileiro e, mais que isso, entrega um álbum muito bem produzido, sem concessões. Nessa boa entrevista para O Povo ele não faz questão de esconder:

(Sobre o estereótipo do nordestino Brasil afora): As pessoas tendem a colocar as outras e a si próprias dentro de uma embalagem. Tudo é produto e o pressuposto é que as pessoas são idiotas. A gente vive num mundo onde as pessoas são idiotizadas umas pelas outras. (Sobre o contexto da música brasileira em que o rap está inserido):Eu acho massa o Criolo e o Emicida fazerem o que eles fazem. Eles sobrevivem como podem dentro de um contexto. A construção desse contexto já envolve muito mais gente e já é uma estrutura parecida com o que a gente tem na política brasileira. Ainda é basicamente o Brasil Colônia, a sacanagem pseudo-cristã das oligarquias dos senhores de escravos. Falo sobre a mediocridade desse contexto de pessoas com pouca visão, sempre com o máximo de oportunismo barato e zero investimento em capital especulativo artístico de qualidade.

O discurso é afiado e a música também. Basta ouvir “Aquela Fé”, um dos destaques do disco, para perceber que não estamos diante de um rapper comum. Após o reconhecimento alcançado com o grupo Costa a Costa e com a ótima mixtape “Caro Vapor / Vida e Veneno de Don L”, ele entrega em “Vol. 3” seu trabalho mais bem acabado.

Outro lançamento significativo de 2017 é Rincon Sapiência com seu manifesto “Galanga Livre”. De saia na capa, afro até o talo, ainda bem, foi responsável por algumas das melhores faixas do ano que ainda devem ressoar por muito tempo. Caso de “Ponta de Lança (Verso Livre)” e “A Coisa Tá Preta”.

E ainda tivemos de veteranos como Rodrigo Ogi com o bom EP “Pé No Chão” até a revelação niLL e seu “Regina”. Alguns exemplos – existem outros – sobre como 2017 foi um ano marco para o rap nacional, de longe o estilo mais relevante e afiado do país hoje.

E que, tudo indica, permanecerá assim por muito tempo. Siga, por exemplo, essa thread sobre os lançamentos de 2018 previstos para o estilo.

Esse post era para ser sobre os melhores do ano mas, no fim, deixou de ser. Não poderia esquecer, no entanto, do discaço do Mateus Aleluia – “Fogueira Doce” – que infelizmente foi muitíssimo mal divulgado e não está presente em nenhuma plataforma digital. Da velha guarda pra nome, Xênia França chegou arrebentando com seu R&B poderosíssimo mesclado com aquele punch tipicamente brasileiro, assim como a mistura que te pega pela jugular do Aláfia e seu excelente “São Paulo Não é Sopa”.

Pra variar, o melhor que esse país produz é negro, negríssimo, “negro como o soluço de uma cuíca” versão 3.0.

Em tempo: o Scream & Yell publicou ontem a sua tradicionalíssima lista de melhores do ano, com 126 convidados. Estamos lá, formalmente, pelo 11º ano consecutivo e estes são os meus votos – enviados no fim de dezembro – com outras indicações de discos gringos, shows, livros, músicas, etc.

Em 2018 a Movin’ Up completa 10 anos na praça: pra quem começou no peito e na raça – e continuamos aqui – até que chegamos longe 😉

Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "Meu Mundo é Hoje" e "11 Rounds", de contos e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

Published in Melhores do Ano