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O desconforto necessário: Hilton Cobra, Lima Barreto e o racismo estrutural brasileiro no palco

Não existem metáforas suficientes para descrever a potência do gancho no queixo que “Traga-me a Cabeça de Lima Barreto” representa. Um ator consagrado, com mais de 40 anos de carreira, que tanto fez pelo teatro e pela cultura brasileira, encarnando um escritor que até hoje carrega a pecha de maldito e que só recentemente passou a ser “validado” por eventos como a Flip.

Se Merval Pereira está na Academia Brasileira de Letras – exemplo citado por Cobra na peça – esse é só um indício do racismo brutal, estrutural e intransponível de um país que passou mais de 300 anos explorando a mão de obra escrava negra e indígena, que foi o último do mundo a “abolir” a escravidão e só o fez para seguir mantendo o privilégio da elite.

Um país que mata jovens negros com a eficiência de uma máquina pública criada para matar. O nosso eugenismo é diário, permanente, concreto e histórico. Um país que trata com razoável “normalidade” o terrorismo (esse é o nome) praticado por “bandidos de Cristo” e outros contra terreiros de umbanda e candomblé. Um país, afinal, que tem o presidente que hoje tem. Que mantém as mesmas estruturas elitistas, exclusivistas e punitivistas contra negros na cultura, na política, nas ruas, na imprensa, nas universidades. Em suma, em todo lugar.

E nada melhor que Hilton e Lima para escancarar o nosso rosário de absurdos transformados em cotidiano.

“Como um cérebro considerado inferior poderia ter produzido uma obra literária de porte se o privilégio da arte nobre e da boa escrita é das raças tidas como superiores?”

Essa provocação é o mote da peça, que traz o cenário hipotético – mas nem tanto – da exumação do corpo de Lima Barreto pela Sociedade Brasileira de Eugenia para examinar o cérebro do escritor diante de “7 teses fundamentais” que, projetadas no telão, expõe o racismo higienista de ontem e de hoje.

E dá-lhe teses de gente como Francis Galton, Renato Kehl, Nina Rodrigues, Afrânio Peixoto, Fernando Azevedo, Arthur de Gobineau e Monteiro Lobato, a escória que merece ser citada aqui para que seu “legado” não se repita.

Artisticamente, Hilton é muitíssimo habilidoso em mesclar textos de Lima Barreto (principalmente de “Cemitério dos Vivos” e “Diário Íntimo”) com o aspecto também rancoroso, incisivo, cômico e desafiador da vida e dos escritos de Barreto – que adorava desprezar a ABL ao mesmo tempo que desejava entrar para a academia, que tripudiava dos seus colegas ricos da Politécnica, que conservava um alcoolismo funcional, uma incapacidade de se relacionar com mulheres e uma “loucura” supostamente “herdada” do pai.

Ao lado da direção do seu velho parceiro Luiz Marfuz no roteiro e da direção competente de Fernanda Júlia, Hilton transforma o minimalismo em potência desafiadora. A mesma do escritor que fez de uma personagem negra, pobre e mulher – Clara dos Anjos – cerne de um dos seus livros. Coisa rara, diga-se, até hoje.

Para o fascista, a cultura é suspeita na medida em que é identificada com atitudes críticas

Vi a peça em um SESC Garagem abarrotado em uma noite fria de Brasília. Lugar histórico para a cultura da capital federal e parte do sistema que Paulo Guedes quer destruir, questão que também foi abordada por Cobra no final da peça, quando falou brevemente ao público.

Não é de surpreender que um ministro abertamente fascista como Paulo Guedes, que se criou lambendo os coturnos de Pinochet, muitíssimo acostumado a uma ditadura, tenha o Sistema S – e especialmente o Sesc – como um dos seus alvos. Afinal, a cultura sempre foi escolhida como uma das maiores inimigas do fascismo.

Basta lembrar que todo o Sistema S, que realiza uma infinidade de ações (dezenas de milhares), da cultura à formação profissional, passando por saúde, lazer, esporte, etc, teve orçamento de R$ 21 bilhões em 2017. Já as políticas de incentivos e benefícios fiscais custaram ao governo federal R$ 283,4 bilhões somente em 2018.

Acabar com a cultura, sufocar seus incentivos e seus espaços de propagação, reservá-la para uma reduzida elite é algo típico de um governo fascista, da mesma turma de eugenistas citados na peça, exatamente tudo que Hilton Cobra sempre combateu a vida inteira.

Neste longo texto que publiquei sobre a biografia de Lima Barreto escrita por Lilia Schwarcz, afirmei:

Lima Barreto encarnava uma nova literatura. Negra, negríssima, com o cheiro das ruas, suburbana, como ele, virulenta, satírica, ébria, cosmopolita sem sair de casa, como ele, política e corrosiva, dada a diatribes, provocações e inconveniências. Uma literatura brasileira, contra a mania de importar tudo que vem do estrangeiro, contra o determinismo racial tão em voga no seu tempo, uma literatura de oralidade, de forte presença da herança africana, indígena, mulata (ressignificando a origem negativa do termo) e mestiça, algo longe de ser regra na época. Que retratava o subúrbio, onde morava e conhecia tão bem, sempre se organizando em seus microcosmos de poder, influência e cultura com tintas próprias.

No palco, Hilton Cobra consegue transportar tudo isso para uma premissa brilhante e necessária, que dialoga com o racismo estrutural brasileiro de maneira precisa e forte, com espaço para as diatribes cômicas de Barreto.

A construção da narrativa e o formato cênico entregam 60 minutos de soco no estômago, parando somente para tomar uma dose de marafo.

Lima Barreto e Hilton Cobra representam muito do melhor que esse país produz, muito do Brasil que importa, contra toda a barbárie onipresente da nossa desigualdade racista, sádica e assassina. Tendo a oportunidade, vá prestigiar.

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Jornalista investigativo, crítico e escritor. Publico sobre música e cultura desde 2003. Fundei a Movin' Up em 2008. Autor de 3 livros de contos, crônicas e poemas. Vencedor do Prêmio de Excelência Jornalística (2019) da Sociedade Interamericana de Imprensa na categoria “Opinião”. Finalista do V Prêmio Petrobras de Jornalismo (2018).

Published in Cena BR