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Stanley Clarke – Jazz In The Garden

Stanley ganhou notoriedade mesmo a partir do Return To Forever, grupo montado pelo pianista Chick Corea no início dos anos 70 e que foi fundamental no desenvolvimento do -fusion, com elementos do rock e também da música latina, no caso do RTF. O grupo, com variadas formações, acabou por reunir alguns dos maiores músicos do pós-60’s, como já era o próprio Corea e viriam a ser , Al Di Meola e o baterista Lenny White, que gravou com Miles Davis e acabou fazendo parte do trio montado por posteriormente.

Tive a oportunidade de ver Stanley Clarke ao vivo em 2007, em Belo Horizonte, junto a Al Di Meola e Jean-Luc Ponty no espetacular projeto “Rite Of Strings“. Ali, cara a cara com ele, você entende a diferença entre assistir um monstro e a maioria dos batedores de cordas por aí que chamamos de “baixistas”.

Ao lado do companheiro Lenny White e da surpreendente Hiromi Uehara, Clarke lançou ano passado este “Jazz In The Garden“, que passou batido por muita gente, inclusive por mim, que demorei a ouvir. É sem dúvida uma das melhores obras de 2009. Já nos primeiros minutos de “Paradigm Shift”, homenagem à Barack Obama, fica evidente o refinamento do trio em nos entregar o melhor do jazz contemporâneo, seja nas melodias únicas seja no virtuosismo inevitável e sempre posto a favor da música, não como mera exibição.

Clarke traz o impecável vibrato de sempre, criando estruturas, harmonias e “conversações” únicas entre os instrumentos. O piano de Uehara não se intimida por ficar entre os dois mestres. A capacidade de reinterpretar clássicos e standards com um domínio próprio e fluido fica evidente desde “Sakura Sakura”, música japonesa, até a incrível “3 Wrong Notes”. Uehara contribui com a doce “Sicilian Blues” e “Brain Training”, além da colaboração direta em “Global Tweak”. Impressiona o entrosamento maravilhoso alcançado com dois ícones do jazz que se conhecem há décadas, as melodias diversas que emergem do piano e o senso de colocação sempre preciso.

Os standards não poderiam ser escolhas melhores: “Solar”, de Miles Davis, “Take The ”, de Duke Ellington e “Isotope” de Joe Henderson falam por si.

Por fim, o trio entrega ainda uma versão no mínimo suculenta de – pasmem – “Under The Bridge”, clássica balada do Red Hot Chili Peppers, presente no “Blood Sugar Sex Magik” de 1991. A dimensão totalmente nova dada a UTB é um deleite completo, independente de se gostar ou não da original.

Clarke e White são exemplos de músicos não acomodados e não reféns da própria técnica ou do nome que criaram. “Jazz In The Garden” tem o frescor do ápice da juventude, maturado pela experiência imprescindível dos anos. A criatividade e o constante desafio ao trivial (falso pleonasmo) encontram horizonte singular aqui. Apostando em direções variadas e complementares do jazz, o trio acerta sempre, trazendo nas 12 faixas um panorama amplo da música atual. Obrigatório.

Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "Meu Mundo é Hoje" e "11 Rounds", de contos e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

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Published in Destaques Reviews de Cds