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Paul McCartney: eta trem bão sô

Por Maurício Angelo

Até o último sábado Belo Horizonte se sentia “desprestigiada” por Paul McCartney, sem dúvida o compositor de música pop mais importante vivo. E a relação umbilical da cidade com a obra do quarteto inglês, como bem lembrou Thiago Pereira, nesse ótimo texto, é forte: afinal, o Clube da Esquina bebeu muito na fonte dos Beatles, “Para Lennon e McCartney” é um hino da música mineira  e a influência da banda é sentida de diversas maneiras em BH e no estado.

Curioso que a campanha “Paul, vem falar uai”, criada despretensiosamente em 2011 por 4 adolescentes no Facebook tenha tomado a magnitude que tomou. Endossada pelas redes sociais, pela própria produção do evento e pelo público em geral em camisetas e tudo mais, foi ainda mais surpreendente quando Paul chamou as 4 meninas no palco para agradecer pessoalmente e autografar tatuagens de algumas delas. Sem dúvida um momento que as 4 garotas jamais esquecerão e exemplo de humildade poucas vezes visto.

Paul, disparado o ex-beatle mais ativo desde a morte precoce de Lennon, manteve uma carreira solo exuberante, seja com os Wings, em clássicos como “Band On The Run” – que registrou a única falha de som do show – em “Listen To What The Man Said”, no rock vigoroso de “Let Me Roll It” e em “Mrs Vandebilt”,  seja nos discos próprios das últimas décadas, sempre com momentos exemplares do seu brilhantismo.

A atmosfera de “harmonia”, “expectativa” e “entronização” do público com Paul, desde o início, era fenomenal. 53 mil pessoas compareceram ao novo Mineirão, reformado para a Copa do Mundo e ainda com problemas visíveis, seja de estrutura ou de logística, a exemplo das longas filas e o trânsito caótico na saída do estádio, com pouco preparo da BHTrans para lidar com situações do tipo, questão velha que permanece. A produção do evento respondeu algumas dessas questões aqui – e faz bem em pontuar.

Mas Paul realmente fez questão de agraciar o público com frequencia, arriscando várias frases ensaiadas em português, elogiando naturalmente a cidade, o público e brincando com o desejo geral quando disse “Paul finalmente veio falar uai” e “eta trem bão sô”, para delírio geral.

 A banda que acompanha Paul é competente e segura, mas sem grande destaque. Com exceção do baterista Abe Laboriel Jr, filho do mestre Abraham Laboriel, ícone do jazz e que despeja muito punch quando necessário. O guitarrista, Rusty Anderson, é o típico exibicionista e o resto nem compromete nem se destaca.

Desde o início, com “Eight Days a Week”, Paul procura mesclar bem músicas de várias fases dos Beatles com canções de autoria própria, indo da doçura de “All My Loving”, típico exemplar da fase inicial da banda até “Paperback Writer”, single que, de certa forma, iniciou a guinada na carreira do grupo, fugindo do esquema açucarado e simples dos primórdios, sem desmerecer nunca o poder da simplicidade quando bem executada.

“Blackbird”, clássico absoluto do “White Album”, leva Paul em um palco elevado e que delícia é, logo depois, ouvirmos “Eleanor Rigby” e “Being for the Benefit of Mr. Kite!”, a única de Sgt Peppers Lonely Heart Club Band – talvez o disco mais icônico dos Beatles – a ser executada ao lado de “Lovely Rita”.

E é nessa segunda parte do show que as coisas esquentam de verdade. “Something” vem emendada com “Ob la di Ob la da”, um primor de música pop que muitos até teimam em desmerecer mas que considero clássico absoluto e ótimo exemplar da qualidade da banda em brincar com harmonias.

Se no pop propriamente dito e nas baladas McCartney é gênio indiscutível, nas músicas mais pesadas a qualidade não cai em nenhum momento: “Back In The USRR” eleva o tom, “Let it Be” vem na sequencia pra machucar corações desavisados e “Live And Let Die” e sua estrutura perfeita de ápice e calmaria é usada para disparar fogos de artifício e labaredas no palco. O público sempre amou pirotecnia e efeitos visuais, desnecessário dizer que sempre feitos de maneira responsável, o que acontece em 99% da história da música. Sem dúvida um dos pontos altos do show.

httpv://www.youtube.com/watch?v=Q6BhCNgDIHY

“Hey Jude” e “Yesterday” são outras que não podem faltar e quando você olha para o estádio inteiro cantando junto e com os celulares acesos, assim como em “Let It Be”, sim, é de emocionar. Uma sensação de privilégio e beleza genuína que a música é capaz de proporcionar. “Get Back” quebra a calmaria enquanto o final com “Helter Skelter”, sem dúvida uma das tantas pioneiras músicas a ensaiar o início do “metal”, criado e definido de fato pelo Black Sabbath, é de levantar os punhos e de empolgação geral.

O final de certa forma precoce com o medley “Golden Slumbers/Carry That Weight/The End” encerra um show que ninguém ali queria acreditar que já estava acabando. Aos 71 anos, talvez a maior lenda viva da música do século XX, da banda mais importante da história – alguém ainda consegue questionar isso? – é capaz de arrebanhar mesmo quem não é exatamente um grande entusiasta ou fã fervoroso.

É impossível mensurar o repertório, o carisma e a importância de Paul. Um desses casos em que qualquer hiperbolismo é insuficiente. Belo Horizonte recebeu o seu batismo com honras e glórias. E é admirável a postura de Macca em, nos últimos anos, tocar em cidades que ele não havia tocado e que não costumam receber shows dessa magnitude fora do eixo Rio – SP – POA (bem menos, mas ainda sim).

Parece que McCartney tem se esforçado em legitimamente presentear os seus fãs de todas as partes, no que provavelmente caminha para ser uma das últimas turnês dele, apesar de ainda estar muito bem de saúde e a voz ter sofrido pouco para o senhor que ele é. As dezenas de cartazes de “Thank You” levantados pelo público e citados por ele no final ilustram bem isso. Caso raro de harmonia íntima e verdadeira entre público e artista. Obrigado, Paul.

Fotos: Marcos Hermes

Paul McCartney Setlist Mineirão, Belo Horizonte, Brazil 2013, Out There! Tour

Jornalista investigativo, crítico e escritor. Publico sobre música e cultura desde 2003. Fundei a Movin' Up em 2008. Escrevi 3 livros de contos, crônicas e poemas. Venci o Prêmio de Excelência Jornalística (2019) da Sociedade Interamericana de Imprensa na categoria “Opinião” com ensaio sobre Roger Waters e o "duplipensar brasileiro" na Movin' Up.

Published in Destaques Reviews de Shows