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Apanhador Só: no caminho para ser “a” banda indie brasileira dos anos 10

Por Maurício Angelo

“Antes Que Tu Conte Outra” não só é um dos melhores discos brasileiros do ano, como também um dos mais corajosos. Afinal, com a estreia, o cravou seu nome entre mídia e público com um pop que, ao mesmo tempo que era familiar, também soava fresco, inventivo, com composições palatáveis acima da média. A Movin’ Up entrevistou a banda na época, aqui.

Seguir no mesmo caminho, portanto, seria mais do que natural para uma banda que começou tão bem, cativou seu público e precisa solidificar de vez sua posição no mercado, fazer o negócio render, ampliar o alcance. Ao contrário, o Apanhador Só escolheu o caminho mais difícil: entregou uma obra altamente experimental, ousada, calcada em escolas vanguardistas, com estruturas fora do padrão comum do pop, com melodias tortas, ruídos, letras críticas – e cínicas – variações de tempo, usando instrumentos e utensílios diversos na criação de uma parede sonora única, que não encontra par no Brasil.

httpv://www.youtube.com/watch?v=M8q93Frymks

“A prova do segundo disco”, aqui, soa como um amadurecimento precoce e impressionante. “Mordido”, “Vitta, Ian, Cassales”, “Lá em Casa Tá Pegando Fogo” e “Despirocar”, as quatro primeiras músicas, chegam com o pé na porta do senso comum, do refrão fácil, da melodia copy & paste, da produção em série. Poucas vezes uma banda consegue ser tão experimental e ao mesmo tempo tão equilibrada, concisa, controlando os próprios exageros –  nenhuma faixa do álbum ultrapassa 5 minutos e meio – jogando ácido na ferida e assoprando depois.

Ao vivo, como pude conferir em Belo Horizonte na última semana, no Teatro Bradesco, o disco soa melhor ainda. O desafio de reproduzir a liberdade, o tempo e os truques de estúdio no palco é encarado com muita segurança e habilidade pelo Apanhador, que faz uma apresentação focada no novo trabalho ao mesmo tempo em que, a pedido do público, emenda umas 4 músicas do primeiro álbum no bis.

httpv://www.youtube.com/watch?v=8NzQyyACE7c

Ali fica evidente o quanto o Apanhador Só caminha para ser a melhor e mais relevante banda indie brasileira dos anos 10. O indie por excelência, de direito bem conquistado. Entrando na linha de frente do que costumamos chamar de “independente” e “alternativo”. Com o Apanhador, este título simbólico está em boas mãos. Não que a banda pareça se preocupar com esses vícios da crítica, que precisa estabelecer ícones, rótulos, gradações e comparações.

Na entrevista a seguir, Alexandre Kumpinski, vocalista e guitarrista do Apanhador, fala sobre os detalhes do disco, que foi bancado via crowdfunding e está disponível para download gratuito no site da banda.

apanhador 2

Movin’ Up – A estreia já demonstrava uma banda experimental mas plenamente consciente da importância da melodia, criando harmonias palatáveis para canções no formato mais tradicional, digamos. “Antes Que Tu Conte Outra” torce e retorce o que era padrão”, adiciona um sem fim de temperos na panela e prima pela variação dentro de cada música. Podemos considerar a mistura de um caminho natural com uma proposta deliberadamente “livre”?

Alexandre Kumpinski – É muito difícil pra nós conseguir diferenciar o que é deliberado ou não dentro dos processos que geram um disco. Talvez uma forma de simplificar a questão é dizer que, quando a gente se juntou numa casa pra fazer a pré-produção do “Antes que tu conte outra”, o que reinava na atmosfera era uma sensação de liberdade pra fazer o disco que a gente tava afim de fazer, sem se preocupar com o quão diferente ou parecido ele seria com algo que a gente já tivesse produzido antes. E o disco acabou soando do jeito que soa.


Movin’ Up – O “Acústico-Sucateiro” me parece fundamental no processo de usar itens e elementos incomuns para criar texturas próprias para as canções. A experiência dele foi a base para Antes Que Tu Conte Outra”?

AK – Não só ele. Na verdade, as coisas vão se encadeando como uma rede (mais do que como uma linha), e dentro disso é difícil apontar algo que tenha servido de base principal pro último álbum. Além dos arranjos, mudaram também o tom geral das composições, e até mesmo as nossas visões de mundo e as nossas posturas em relação a elas. Então muitas coisas, talvez até incontáveis ou intangíveis, acabaram sendo a base pra esse disco soar do jeito que soa. Inclusive a experiência com o “Acústico-sucateiro”, que serviu como uma espécie de laboratório onde se expandiram as possibilidades de arranjo pras canções que tínhamos em mãos.

Movin’ Up – Talvez seja inevitável lembrar que John Cage seja o avô desse tipo de experimentalismo que a banda pratica. Também me vem à mente coisas distintas como o soundpainting de François Janneau, a música concreta de Pierre Schaeffer e por aí afora. Coisas muito pouco presentes no “indie” brasileiro. Vocês enxergam o Apanhador com algum paralelo com essas escolas e como vocês se veem na cena brasileira, hoje, com o disco atual?

AK – Nossa música não chega a ser conceitual, mas certamente se vale, conscientemente ou não, de legados de escolas que relativizam dogmas artísticos. A faixa Nado certamente tem a ver com o trabalho do Evan Parker no free jazz, por exemplo, mesmo que, enquanto criávamos o arranjo dela, isso não estivesse explicitamente nas nossas cabeças. Até porque escutar os sons que chegam pela área de luz de um prédio residencial também pode ser apontado como uma referência forte pra essa música, ao mesmo tempo que escrever essa frase sem medo de soar absurdo certamente tem a ver com o trabalho do John Cage.

Sobre a cena brasileira, é difícil dizer. Eu tenho a impressão de que, a partir desse disco, estamos navegando um pouco mais sós do que antes, no sentido de que se tornou mais difícil achar bandas ou músicos com trabalhos que dialoguem esteticamente com o que a gente desenvolveu no “Antes que tu conte outra”. E nisso entra não só a sonoridade, mas a temática de uma forma geral também.

Movin’ Up – “Vitta, Ian, Cassales” é exemplo perfeito do disco: seja pelas variações rítmicas seja pela letra que, me parece, dá o tom do álbum. Esse exercício de ironia, sarcasmo e autocrítica velada, essa verve corrosiva sobre o estilo de vida que boa parte de nós leva. É por aí?

AK – Eu acho essa faixa a melhor canção do disco, e talvez a canção que mais diga respeito à minha vida pessoal. Mas eu não vejo ela como uma faixa que dá o tom do álbum. Antes, vejo uma espécie de coluna vertebral do disco formada por “Mordido”, “Despirocar”, “Por trás” e talvez “Reinação” e “Líquido Preto”. Porque acho esse disco bastante desacomodado, combativo, agressivo até. E essa maneira de ser politizado não aparece tanto em “Vitta…” pra mim.

httpv://www.youtube.com/watch?v=odJEnqBYgSk

Movin Up – Talvez seja simplificar demais a questão, talvez coincidência inflamada por acontecimentos recentes, mas muita gente pode acabar interpretando faixas como “Mordido” e “Por Trás”, como uma crítica indireta ao Fora do Eixo e o esquemão que eles montaram na cena independente nos últimos anos, que o Apanhador faz parte. “O teu esquema sempre foi lograr criar uma imagem boa pra vender” e “tudo certo, parceria, que palavras lindas mas ainda tem uma coisa que eu não entendi: qual é, afinal, o peixe que tu tá vendendo?” soam fortes. Faz sentido estabelecer essa relação?

AK – Faz muito sentido, mesmo que as músicas não tenham sido escritas pensando especificamente no Fora do Eixo. Na verdade, o Fora do Eixo trabalha com uma lógica (não-sincera, falaciosa, oportunista) que vigora em diversas áreas. Por exemplo, na grande maioria da publicidade que nos é enfiada goela abaixo todos os dias, vendendo ideias mentirosas e disfarçando práticas duvidosas. Em ações de marketing mascaradas de altruísmo socialmente consciente. No trabalho de supostos agentes culturais que tentam transformar movimentos sociais legítimos em um novo tipo de mercado a ser explorado ou coisa do tipo. Enfim, é como se essas músicas falassem pra um tipo de lógica discursiva que se encaixa em muitos exemplos, inclusive no Fora do Eixo.

Movin’ Up – O crowdfunding tem sido adotado por um sem número de bandas e parece uma alternativa viável para quem tem uma base de fãs razoavelmente estabelecida. No entanto, vejo muitos orçamentos, digamos, superfaturados por aí e a taxa de sucesso é bem baixa. Que análise o Apanhador faz disso?

AK – Não cheguei a acompanhar nenhum caso que tenha me parecido superfaturamento, então não tenho opinião sobre isso. De qualquer forma, acho sempre de bom tom que os projetos de crowdfunding sejam o mais transparentes possível, com orçamentos abertos, pra que as pessoas saibam pra onde tá indo o dinheiro delas.

Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "Meu Mundo é Hoje" e "11 Rounds", de contos e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

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Published in Destaques Entrevistas