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Porão do Rock 2013: saldo positivo

Tradicionalíssimo festival candango, chegando à sua 16ª edição, o Porão do Rock é considerado também um dos maiores festivais “independentes” do Brasil – especialmente agora com a dissolução da Abrafin e o esvaziamento geral dos festivais pelo país – o segue firme como boa referência do rock mais pesado, da oportunidade que abre para novas bandas, seja do entorno de BSB ou de outros cantos do país, das mescla do pop com o metal e hardcore e medalhões internacionais e brasileiros com grupos iniciantes.

Não pude ir no primeiro dia de festival, na sexta, 30. Recomendo a cobertura do amigo Tomaz Alvarenga, no Correio Braziliense, aqui e aqui. Neste sábado, 31, cheguei às 17:30 e acompanhei a maioria dos shows. Enquanto Saurios (DF) e Egoraptors – um duo no melhor estilo White Stripes wannabe, incluindo a baterista que deve ter uns 16 anos – não empolgou os primeiros corajosos que chegavam na arena, a grande surpresa da noite foi o Supercombo, do Espírito Santo.

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Bebendo na fonte do melhor indie rock alternativo das últimas décadas – Replacements, Violent Femmes e Minutemen até Incubus, Deftones e Stereophonics – a banda impressionou por seu ótimo senso de dinâmica nas cancões, variações rítmicas, de timbres e harmonias, letras melhores que a média e uma boa pegada, o que adiciona bastante tempero no indie rock modorrento, excessivamente “fofo” e genérico que se costuma fazer no Brasil. Com dois discos no currículo (o último é “Sal Grosso”, de 2011), a Supercombo provou que merece ser descoberta pela mídia especializada e pelo público. A adição da baixista Carol Navarro, no fim de 2012, acrescenta sem dúvida um charme extra para a banda, pela presença de palco e da força que o baixo tem no som do grupo, além da beleza. “Se Eu Quiser”, “Anestesia”, “Campo de Força” e “Piloto Automático” foram destaques.

Já o Rocca Vegas, de Fortaleza, apesar de formado por músicos experientes na cena local, não me empolgou na sua mistura de pop rock com hardcore e elementos eletrônicos. A sensação que dá é que alguma coisa deu errado na mistura. Infelizmente pude ver muito pouco do show do Sexy Fi, banda brasiliense (ex-Nancy) que tem tido boa recepção com o disco “Nunca Te Vi de Boa”, lançado ano passado, quase uma “crônica” da vida em Brasília. Jogando em casa, com o público na mão, a partida estava ganha para eles.

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Paralamas faz o que se espera, Mark Lanegan decepciona, Krisiun sempre no ápice e Suicidal celebra a carreira

Comemorando 30 anos de carreira e celebrando sua eterna ligação com BSB, os Paralamas do Sucesso era a grande atração nacional da noite, assim como o Capital Inicial no dia anterior. Apesar disso, estranhei bastante o pouco público que ainda chegava na área externa do Mané Garrincha. Se o público esperado era de 40 mil pessoas nos dois dias do festival, dá pra arriscar que a realidade ficou por metade disso. Um tanto inexplicável considerando as atrações, o valor quase simbólico do ingresso (R$ 10 a 20) e a ligação histórica do Porão com a cidade.

Na coletiva pré-show, Herbert, Barone e Bi Ribeiro celebraram seus laços com a cidade, falaram sobre a alegria de estarem em Brasília num momento de celebração dos 30 anos, das boas lembranças da época em que moraram aqui e da importância do PDR como festival e para novas bandas. Mais do mesmo, claro, mas com carinho.

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O show foi aquilo que se esperava: um enfileiramento de hits das diversas fases da banda. No entanto, o grupo se dedicou especialmente a músicas dos anos 80, em momentos de inevitável nostalgia. Dá pra afirmar sem medo que o Paralamas é a melhor banda brasileira de pop dos anos 80/90? Dá. Os três souberam como ninguém a processar influências de dub, reggae, música latina e o diabo numa abordagem acertada, urbana, dialogando perfeitamente com o espírito e o público de cada época. O Paralamas tem uma série de jóias pop no currículo e não hesita em usá-las: “Alagados”, “Cinema Mudo”, “Cuide bem do seu amor”, “Meu Erro”, “Óculos”, “Lanterna dos Afogados”, “Melô do Marinheiro” e “Loirinha Bombril”, entre tantas.

Com direito a bis, coisa rara no festival, a banda voltou com a inevitável “Vital e Sua Moto” e “Que País é Esse?”, pra fechar, além de “Aonde Quer Que eu Vá” e “Caleidoscópio”. Com esse foco no material oitentista, a obra dos anos 90, mais experimental e também mais redonda, ficou praticamente de lado. “Os Grãos” (91), “Severino” (94) – o melhor disco, pra mim, e com nenhuma música executada – “9 Luas” (96) e “Hey Na Na” (98) tiveram pouquíssimas faixas no repertório. Talvez pelo formato reduzido para festival (1 hora e meia de show), mas mesmo assim uma lacuna considerável.

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Krisiun: a melhor banda de metal brasileira pós-Sepultura

Com 8 álbuns de estúdio no currículo, alguns EP’s e compilações e mais de 20 anos de carreira, o Krisiun manteve não apenas seu núcleo inalterado – Alex Camargo no baixo e vocal, Moyses Kolesne na guitarra e Max Kolesne na bateria – como atingiu um nível absurdo e constante em se tratando de death metal. Não é só a melhor e mais reconhecida banda brasileira de metal extremo pós-Sepultura, como é, sem dúvida, uma das melhores bandas da história do death metal mundial.

E assistir um show deles é garantia de conferir que, ao vivo, o nível alcançado em estúdio se mantém. De pedradas do início da carreira até itens mais recentes da discografia, o que se vê é um death metal extremamente trabalhado em riffs, solos, bases, pausas e retomadas, uma bateria inteligente que é veloz mas não aposta puramente no atletismo. O Krisiun tem o repertório e o nível de poucos e isso fica muito claro na sintonia dos três. Confira a pegada de “Bloodcraft”, por exemplo. Sempre histórico.

Mark Lanegan: preguiçoso, no formato errado, na ocasião errada para o público errado

A expectativa para o show do Mark Lanegan era altíssima. Afinal, sua carreira (seja com o Screaming Trees, nas colaborações com Greg Dulli e outros artistas e principalmente solo) é ótima. “The Blues Funeral” foi um dos melhores discos do ano passado. Mark é uma espécie de coringa do cenário “alternativo”. O filho perdido (e menos talentoso) da linhagem que inclui Leonard Cohen, Tom Waits e Nick Cave.

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Com a banda completa, seria um showzaço, adequado para um festival do tamanho e da característica que tem o Porão. Acústico, acompanhado somente por um baixo e um violão, o que se tem é uma apresentação burocrática, intimista e soturna que ficaria ótima para um show em teatro. E assim Lanegan desfilou de maneira preguiçosa e fria canções com potencial muito maior do que o apresentado, como “The Gravedigger’s Song”, “One Way Street” e “Bombed”, apesar da beleza inegável de peças como “Cherry Tree Carol”, “Mirrored” e “Im Not The Loving Kind”, cover de John Cale que estará no novo disco, “Imitations”.

Boa tentativa, Mark, mas fica pra próxima.

O grindcore irresistível do Galinha Preta e a volta do Suicidal Tendencies

Com 10 anos de desgraça nas costas, o Galinha Preta, de Taguatinga, fez um show irrepreensível do seu ótimo e bem humorado grindcore. Com dois bonecos infláveis de esqueletos gigantes no palco, o vocalista Frango comanda uma verdadeira festa do caos e, além disso, a banda é muito competente, calibrando no instrumental que não é monotemático e previsível, no máximo que o grindcore pode ser, claro. Mas há boa variações de bases e riffs num som que faz um retrato da vida fora da maquete do Plano Piloto e capricha nas letras engraçadas, mas não idiotas. Um dos melhores shows da noite, sem dúvida.

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Já o Suicidal Tendencies, que aglomerou um bom público no Palco Budweiser, retornou à Brasília após uma apresentação no próprio Porão do Rock, em 2008, que eu cobri aqui. Liderados por Mike Muir, o Suicidal é uma instituição do underground e ícones do “skatepunk” e do metal. A novidade é que a banda colocou disco novo no mercado após 13 anos, em 2013, com seu décimo-terceiro álbum de estúdio, intitulado, claro, “13”.

Mike e sua trupe não decepcionam, entregando clássicos como “You Can’t Bring Me Down” e “War Inside My Head” com o material recente, despejando toneladas de grooves ríspidos e funkeados, solos caóticos com seu timbre característico e riffs afiados, incentivando as tradicionais rodas de pogo.

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Era a despedida do dia, que já marcava 02:30 da manhã quando o Suicidal se despediu do palco. Por eles, perdi o garage rock do Mono Men. Lobão, que me abstenho de comentar, entrou no palco com atraso de 45 minutos, quando já começava a ser vaiado. Postura de estrelinha incompatível com tudo, diga-se. O resultado foi um show para os poucos e bravos que resistiram até o fim.

No geral, o saldo do Porão do Rock 2013 é positivo. A infraestrutura foi boa, com filas aceitáveis para o banheiro, bebidas e alimentação, escolha acertada de line-up, com algumas derrapadas naturais e um festival que volta aos trilhos após algumas edições nem tão memoráveis assim. A certeza é de que ano que vem tem mais.

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Texto e vídeo: Maurício Angelo

Fotos: Divulgação PDR e Maurício Angelo

Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "Meu Mundo é Hoje" e "11 Rounds", de contos e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

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