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Echo & The Bunnymen: gigante numa noite morna

O centro da camarilha

Pela quinta vez no Brasil, o Echo & The Bunnymen tornou-se uma daquelas bandas habitués no país. O que, não raro, indica uma fase ruim da carreira ou grupos que já caíram numa descendente, lançando discos no máximo medianos que não ganham muita atenção da mídia e público. É uma pecha que quase serve adequadamente nos Bunnymen, já que o saldo dos últimos 10 anos é um ótimo disco (Siberia, de 2005) e outros 2 apagadíssimos (Flowers, 2001 e The Fountain, 2009). Cachê baixo, clássicos no currículo, fãs fiéis. Mistura que costuma ser o tom de muitas bandas internacionais que aparecem por aqui.

Infelizmente, Belo Horizonte não teve a sorte de São Paulo, que ganhou a execução na íntegra de “Ocean Rain” – um dos melhores álbuns dos anos 80 – com orquestra apenas 1 dia antes. E se BH está longe de ter a vitalidade e “capacidade de absorção de shows” de SP, por motivos óbvios, a ressaca do SWU bateu forte na capital mineira. Com muita gente ainda voltando de viagem, exausta física e financeiramente, o público do Chevrolet Hall, que poderia ser bom, ficou na míngua. Meia pista ligeiramente ocupada. Sempre triste e complicado quando isso acontece, mas compreensível pelas circunstâncias do evento. Clima que o “happy holiday” pálido emitido por McCulloch ilustra bem.

Independente disto, o Echo faz parte daquele grupo de bandas dos anos 80 que são largamente (mal) imitadas hoje em dia. Ótimo, portanto, ver um ícone autêntico na sua frente. Sem cerimônias, Ian e Will sobem ao palco com os comparsas mandando “Going Up”, da estreia, “Crocodiles”, de 80. Dele ainda viriam “Do It Clean”, “Rescue”, “Villiers Terrace” e “All That Jazz”. “Show Of Strenght” e seu final apoteótico, em crescendo, foi outro belo momento já na segunda música. Os anos de abuso de álcool, cigarro e drogas se fazem sentir, claro, na voz de Ian, mas ele parece ter recuperado parte da forma necessária. Tá quase tudo lá, sem perda significativa da essência que fizeram da sua voz uma das mais marcantes do pop. Sargeant, também, faz o seu trabalho sem alarde. Despejando algumas das melhores melodias, ganchos e harmonias da década de 80.

Sendo os dois o eixo do Echo, a festa tá garantida, já que a banda de apoio é razoável. Se não tivemos “Ocean Rain” completo, a polpa esteve presente: “Silver”, “Seven Seas” e, claro, “The Killing Moon”, um dos poucos momentos que o público esboça uma força maior. Fazendo uma geral nos primeiros anos de grupo vieram “The Disease” e a hipnótica “All My Colours”, de “Heaven Up Here” (além de SOS, já citada). No meio sobrou tempo para um cover rápido de “Roadhouse Blues”, do The Doors, sabiamente uma das maiores influências do Echo. As pérolas de “Porcupine” ficaram para o fim: “The Cutter” e “Back Of Love”. “Think I Need It Too”, de The Fountain, foi aquela “só pra dizer que não tocamos nada do disco novo”. Do material recente, a se lamentar a ausência completa de músicas do “Siberia”.

5 minutos de charme e o bis vem com a única da fase pós-80 além de TINIT: “Nothing Lasts Forever”, com pinta de clássico. Pra fechar, “Lips Like Sugar”, hit inevitável e sempre gostoso de ouvir. Pouco menos de 1 hora e meia que, apesar da profusão de hinos, às vezes caía no automático, outras em certa auto-indulgência já típica do Echo. Não foi uma noite das mais inspiradas. Mas, com o jogo ganho, Will e Ian sempre fazem valer a pena.

Jornalista investigativo, crítico e escritor. Publico sobre música e cultura desde 2003. Fundei a Movin' Up em 2008. Autor de 3 livros de contos, crônicas e poemas. Vencedor do Prêmio de Excelência Jornalística (2019) da Sociedade Interamericana de Imprensa na categoria “Opinião”. Finalista do V Prêmio Petrobras de Jornalismo (2018).

Published in Destaques Reviews de Shows