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De ressaca, Alex Turner quer ser Serge Gainsbourg

De ressaca do sucesso avassalador de “AM”, Alex Turner, que só queria ser um dos Strokes, agora arruma uma confusão danada querendo ser Serge Gainsbourg. Coisas da vida, da idade, coisas que acontecem sempre. É isso que o vocalista dos Arctic Monkeys, uma das poucas bandas do tal “revival” do rock no início dos 00 – apesar da estreia ser de 2006 – que ainda segue na ativa e no topo, melhor que a própria trupe de Nova York, diga-se. “I just wanna be one of the Strokes, now look at mess you made me make”, canta Turner na primeira frase da primeira música de “Tranquility Base Hotel & Casino”, seu anti-disco, sua tentativa esfumaçada de sobreviver à crise dos 30 trocando a guitarra pelo piano. 

Se a decadência vem rápida e implacável – e quase sempre vem – Turner se antecipa a ela, frustrando os fãs de viseira bem posicionada, uma jogada típica em sua quebra de paradigmas que, diga-se, não costuma resultar em boa coisa. Inúmeras bandas e artistas já apostaram nessa guinada, em épocas distintas, por motivos diferentes, ambições várias e angústias idem. Sai o traje de roqueiro jovem e cool, entra a indumentária de esporte fino, conhaque na mão, ar blasé bem calculado, disco “conceitual” na praça, velocidade reduzida, músicas que se encadeiam quase sem respiro, quase nenhuma com cara de hit imediato, com outros ares em outro ritmo.

Tinha tudo para dar errado. Mas a verdade é que funciona bem. Talvez seja minha queda pela decadência e por leitos de morte, pela alta madrugada ébria, pela compreensão da atratividade do fracasso, das lamúrias dos vencidos, do verniz sedutor da meia luz, dos cantos encarpetados com cheiro de mofo, pelo derrotismo enquanto redenção.

É um disco que exala cretinice, canalhice, cheio de patifaria, fedendo a naftalina, expurgando plágio e chupada no pescoço, brega, sujo e repetitivo – e é bom justamente por isso. Inspirado por Gainsbourg, entre outros, é no mestre da canção francesa entre o pop e o erótico, entre a fumaça azul incessante dos Gitanes, as taras, conquistas e buscas musicais (como o reggae de “Aux armes et caetera”) do homem que se achava feio cercado por beldades, muitíssimo bem vestido, provocador das madrugadas (falei um pouco sobre a bio de Gainsbourg por Sylvie Simmons aqui, a mesma autora que escreveu a excelente bio de Leonard Cohen), contador de histórias…são muitas as semelhanças e as “inspirações” que Turner toma de Gainsbourg, sobretudo de discos clássicos e conceituais como “Historie de Melody Nelson”. 

Inclusive é relevante que “Tranquility Base Hotel & Casino” tenha sido gravado parte em Londres, parte em Paris e parte em Las Vegas, onde Turner escolheu morar. Nada pode ser mais antagônico que Paris e sua imponência histórica, artística e cultural e Las Vegas, o triunfo absoluto do mau gosto, do capitalismo de oportunidade, uma das coisas mais kitsch que a humanidade já criou. É entre sua terra natal e estas outras duas cidades – dois conceitos, duas entidades, duas presenças – que Turner constrói sua epifania longe do alcance da “Martini Police”.

“Eu apenas queria ser um desses fantasmas que você pensou que poderia esquecer, mas que ressurge do nada para te assombrar pelo retrovisor”, as letras acompanham o que se espera da pretensão criada aqui, sem dúvida as melhores que Turner já escreveu, seja na abertura de “Star Treatment”, no ótima “Science Fiction” ou no single de “Four Out Of Five”: ‘desde o Exodus, tudo tem sido gentrificado’, afirma. E tem mesmo. “Batphone” é outra que exala Gainsbourg e não por acaso das melhores do álbum.

O que temos aqui é um típico disco de ressaca do estrelato – AM levou a banda um patamar acima do conquistado até então, gerando uma ressaca de 5 anos, uma eternidade para o pop – aquela quebra na estrutura, um campari manchando a camisa branca e bem passada da expectativa, um artista colocando a carreira em suspenso porque pode. O sucesso aprisiona mas também liberta, aguça o cinismo, reverbera as possibilidades escondidas no porão.

Contrariando o que se esperava deles – o competente plágio de riffs e músicas que bebem na fórmula testada e aprovada do rock para as massas que se julgam descoladas – o Arctic Monkeys entrega um dos seus melhores trabalhos, correndo o risco e bancando o baque. O jogo é diferente a partir de agora.

Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "Meu Mundo é Hoje" e "11 Rounds", de contos e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

Published in Reviews de Cds